Leia também...

Leia também...
Homo Sapiens x Homo Cyber

Leia também...

Leia também...
O Humor nos Tempos do Cólera

Leia também...

Leia também...
Os 10 Mandamentos da Vida Virtual

Leia também...

Leia também...
Santos Reis
Mostrando postagens com marcador Negritude. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Negritude. Mostrar todas as postagens

Diga Alto!

quarta-feira, 7 de maio de 2014




Nada contra os que aderiram à comilança de bananas - via instagram ou outros aplicativos e redes sociais - em solidariedade ao gesto do craque Daniel Alves, em partida válida pelo Campeonato Espanhol (embora achei que o brasileiro foi de uma coragem danada ao comer aquela banana atirada por um torcedor do Villarreal, que poderia estar “batizada”!).

barcelona_daniel_alves_banana_racismo

O que eu acho é que às vezes hoje, tudo vira modismo, febre ou “hype”, e as causas e consciências, em si, acabam perdendo o sentido e relegadas a um segundo plano.

Eu creio que só posar  para fotos, comendo uma banana apenas para “aderir à causa de combate ao racismo nos estádios”, não irá resolver o problema e nem servirá de conscientização às pessoas de índole racista. O braço estendido com o punho cerrado dos Panteras Negras tinha um simbolismo e um efeito muito maior!

panteras-negras
Nessas horas eu lembro de James Brown, o “Padrinho do Soul”, que, de forma pacífica, sem modismos e sem se fazer de vítima, teve a coragem de gritar bem alto: "Sou negro e tenho orgulho disso!", em plenos anos 60 de uma América racista e opressora:
"Say It Loud - I'm Black and I'm Proud"
[Tradução: "Diga Alto: Sou Negro e Tenho Orgulho Disso"]
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Algumas pessoas dizem que sou um malandro
Alguns dizem que tenho o pavio curto
Mas eu digo que não vou parar de me mover até que tenhamos o que merecemos
Fomos uma raça que resistiu e temos sido desprezados
Fomos tratados como coisa ruim, falaram que éramos apenas ossos
Mas, assim como é preciso dois olhos para fazer um par,
Irmão, não podemos parar até chegar a nossa vez!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Mais uma vez!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Eu trabalhei com os meus pés e as minhas mãos
Mas todo o trabalho que eu fiz foi para um senhor
Agora exigimos a chance de fazer as coisas para nós mesmos
Estamos cansados de bater a nossa cabeça contra a parede
E trabalhando em vão
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Somos pessoas,
Somos como os pássaros e as abelhas
Preferimos morrer em pé
Do que viver ajoelhados!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho disso!
Diga alto: sou negro e tenho orgulho!"


Por aqui, no início dos anos 80, Sandra de Sá (na época apenas “Sandra Sá”) emplacou um “hit” também emblemático:

"Olhos Coloridos"
Os meus olhos coloridos
Me fazem refletir
Eu estou sempre na minha
E não posso mais fugir...
Meu cabelo enrolado
Todos querem imitar
Eles estão baratinado
Também querem enrolar...
Você ri da minha roupa
Você ri do meu cabelo
Você ri da minha pele
Você ri do meu sorriso...
A verdade é que você
(Todo brasileiro tem!)
Tem sangue crioulo
Tem cabelo duro
Sarará, sarará
Sarará, sarará
Sarará crioulo...
Sarará crioulo
Sarará crioulo...
Os meus olhos coloridos
Me fazem refletir
Que eu tô sempre na minha
Não! Não!
Não posso mais fugir
Não posso mais!
Não posso mais!
Não posso mais!
Não posso mais!
Meu cabelo enrolado
Todos querem imitar
Eles estão baratinados
Também querem enrolar...
Cê ri! Cê ri! Cê ri!
Cê ri! Cê ri!
Cê ri da minha roupa
Cê ri do meu cabelo
Cê ri da minha pele
Cê ri do meu sorriso...
Mas verdade é que você
(Todo brasileiro tem!)
Tem sangue crioulo
Tem cabelo duro
Sarará, sarará
Sarará, sarará
Sarará crioulo...
Sarará crioulo
Sarará crioulo...



Sobre o Autor:
Harley Coqueiro
Harley Coqueiro - Advogado e Jornalista. Chargista e Cronista da Folha de Paraopeba. Fã de Beatles, de thrillers policiais e da boa comida mineira.

Cesária Évora - Mar é morada da saudade

sábado, 17 de dezembro de 2011

 
    
Sei agora da morte de Cesária Évora. Sei-me instantaneamente triste. Sequer reconheço o que escrever. Cesária era mais que Évora para mim. Um símbolo imprescindível da música negra que transcende o orgulho e a pretensão brasileira. Sou brasileiríssimo, mas Cesária era uma amostra de onde viemos, da negritude orgulhosa da África mãe sofredora. Não tenho palavras... Não tenho mesmo o que dizer. Reproduzirei apenas os mestres. Que eles digam o que sofro com a morte de Cesária... Que alguém leia o que escrevi e entenda a importância que essa mulher teve para toda a lusofonia. Respeito profundamente as mortes concomitantes de Joãosinho Trinta e de Sérgio Brito. Mas meu objeto maior de respeito hoje é dessa mulher que defendeu seu país e toda a diversidade lusófona tão apaixonadamente. Tornou-se mito...
 


Para rimar e homenagear, ouso, mesmo com rimas longínquas, como nosso respeito e conhecimento por alguém tão importante:

Passou agora Joãosinho Trinta
Passou também o Sérgio Brito
Passou o teatro e o carnaval
Mas passou alguém mais além
Que muitos podem achar ninguém
Cesária Évora nunca foi a tal
Mas há hoje quem ainda a sinta
Cesária Évora foi um mito...



Vozes d'África
(Castro Alves)


Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
- Infinito: galé! ...
Por abutre - me deste o sol candente,
E a terra de Suez - foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
- Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista - corta o mármor de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela - doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...

Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
"Abriga-me, Senhor!..."
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . "

Nem veem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim.

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...
- Serei tua Eloá. . . "

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa - arrebatada -
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do universo,
Eu - pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço

Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...






Navio Negreiro
(Castro Alves)



I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!


Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................


Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.


Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. . .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...

VI
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Siêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriiverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

*****************

Não quero tornar esse post tão longo que seja ilegível... Termino com uma letra de música de Cesária Évora que todos deviam conhecer. Coloco letra e versão, pois o que ela canta é um dialeto de Cabo Verde, sua terra natal. Um dia voltarei a tratar dessa lenda, mais respeitosamente, antes de ter bebido as seis Bohemias que hoje me acompanham nesse post.



Mar e morada de sodade
Num tardinha na camba di sol
Mi t'andá na pr'aia de Nantasqued
Lembra'n praia di Furna Sodade
frontán 'm tchorá Mar é morada di sodade
El ta separá-no pa terra longe
El ta separá-no d'nôs mâe, nós amigo
Sem certeza di torná encontrá
M'pensá na nha vida mi só
Sem ninguem di fé, perto di mim
Pa st'odjá quês ondas ta 'squebrá di mansinho
Ta trazé-me um dor di sentimento

O mar é a morada da saudade

Na tardinha, ao pôr do Sol
Estendido na praia de Nantasqued
Lembro a praia de Furna
A saudade faz-me chorar
O mar é a morada da saudade
É ele que nos leva para terras distantes
Ele separa-nos da nossa mãe,
Dos nossos amigos
Sem certeza de os tornar a ver
A pensar na minha vida tão só
Sem ninguém de confiança perto da mim
Olhando as ondas a rebentar de mansinho
Que me trazem um sentimento de dor


*****************


Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas

A Família Obama e o Melhor Riff de Todos os Tempos

domingo, 20 de março de 2011

 

Obama_Family 

E Mister Barack Obama finalmente aportou em terras tupiniquins com toda a pompa e circunstância de um superastro.  Um forte e constrangedor esquema de segurança foi montado e serviu apenas para destacar um produto de exportação tipicamente americano: a paranoia.

 

Mas não há como negar: o cara tem o carisma e eloquência de um fora de série. Salve simpatia! E a primeira dama, então, consegue ser mais carismática que o maridão e, gatona, não aparenta ter 47 anos!!! [É como dizem: “ ‘Black’ quando pinta, já tem 130”…]

 

Eu estranhei a comitiva: filhas, sogra e tia viajando às custas do erário americano (às custas do Brasil também!). Se a Dilma viajar para os EUA e levar  o mesmo “staff”, coitada, a imprensa e a oposição cairão matando em cima dela!

 

Implicâncias a parte, e o Lula, heim? Acharam que ele ficaria babando o yankee por que um dia ele disse “este é o cara”?. Não, o ex-presidente lançou mão da discreta indiferença socialista anti-imperialista…

 

E o bajulado badalado Nobel da Paz de 2009 teve a cara de pau de autorizar daqui mesmo os seus caças a atacarem alvos na Líbia. Para a Dilma deu uma desculpa bem paradoxal e carregada de eufemismo: “para se proteger civis é preciso a adoção de certas medidas.”. O certo é que o titio Marthin Luther King jamais sonharia com o seu “pupilo” tendo a mesma atitude belicista que tanto combatera!

 

Para “não quebrar o protocolo”, houve um tímido protesto na Cinelândia, reprimido pelas forças de segurança. O chato é a mídia não divulgar imagens de bandeiras americanas queimando.

 

Aproveito para trazer aqui outro negão black fera: Jimi Hendrix tocando “Voodoo Child”, que foi considerada a música com o melhor riff de guitarra de todos os tempos, de acordo com o site Music Radar…

 

 

 

 

Hendrix quebra tudo em “Voodoo Child” , mas não sei não - o riff escondido em “Hey Joe” é muito mais legal…

 

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

Sobre Carnaval, Mandela, Luther King e futebol

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Na quinta-feira, dia 11 de fevereiro, foram completados 20 anos da libertação de Nelson Mandela da prisão onde ficou preso entre 1964 e 1990, acusado de traição ao regime do apartheid. Vencedor do Nobel da Paz em 1993, foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994, no auge de sua popularidade em todo o mundo. Mandela, hoje com 92 anos, está afastado da política e da mídia. Raramente aparece, a não ser em eventos especiais, como ocorreu no sorteio dos grupos da Copa do Mundo na África do Sul (aliás, conseguida graças à influência dele), quando apareceu em vídeo-conferência.

Esses 20 anos de libertação de Nelson Mandela não encerraram as muitas discussões sobre o preconceito. A África do Sul pós-Mandela é um país que nos últimos anos tem melhorado no que diz respeito à igualdade racial, mas ainda possui sérios problemas que provocam outro tipo de desigualdade, a econômica: 17 milhões de habitantes sobrevivem com apenas cerca dois dólares americanos por dia e calcula-se que no mínimo 30 milhões de africanos portem o vírus da Aids. A população atual da África é de cerca de 50 milhões de habitantes. Daí, pode-se ver o tamanho do problema. Jacob Gedleyihlekisa Zuma, o atual presidente, é um polígamo assumido, com várias acusações de corrupção e violência ao longo de sua história política e pessoal (muitos o comparam a Idi Amin Dada, o famoso ditador de Uganda). Zuma não terá forças políticas suficientes para melhorar a situação de seu povo, mesmo que tenha uma Copa do Mundo prestes a ocorrer em seu país.  A Copa do Mundo funcionará para a África como o futebol e o Carnaval funcionam para o Brasil. Panis et circensis.

Em épocas de Carnaval, festa máxima da alienação no Brasil, que certamente nega de forma total qualquer preconceito e muito menos preocupações com problemas econômicos e sociais internos ou estrangeiros, lembrar a libertação de Mandela é uma forma de trazer aos mais jovens a compreensão de um regime contra o qual o mundo todo se mobilizou.

O apartheid, na definição da Wikipedia, significa "separação" em africânder e é uma palavra de origem afrikaans. Foi adotado como lei na África do Sul em 1948 para nomear o regime segregacionista em que brancos assumiam o poder e os restantes eram submetidos a regras que, no final das contas, excluíam-lhes o direito de cidadania.

Não-brancos eram excluídos do governo e não tinham direito a voto, salvo se fossem pleitos de instituições segregadas sem nenhum poder. Também não podiam exercer diversas profissões e não podiam ter negócios em áreas designadas somente para brancos.


Os negros, cerca de 70% da população da África do Sul, foram excluídos praticamente de tudo. Para circular no país, deviam ter um passe, caso contrário, poderiam ser presos. Suas propriedades foram confiscadas e entregues a brancos. Nos lugares onde foram segregados, faltavam desde o saneamento básico à eletricidade e escolas.




Foi um tempo de tristezas. Mandela lutou contra isso. Foi preso. Como Ghandi, pregava a não-violência. Sua companheira nos tempos em que ficou preso, Winnie, deixou de sê-lo quando ele descobriu que ela estava envolvida na morte de um jovem delator.

Martin Luther King e Nelson Mandela têm muito em comum, além da cor da pele. Destaco, sobretudo, que ambos eram sonhadores. O sonho de Luther King e de Mandela não é um mundo melhor para negros. É de um mundo melhor para o mundo, de um mundo melhor para todos que estamos nele.

Recomendo a leitura do artigo de Paulo Nogueira no seu blog Diário do Centro do Mundo, bem como o texto de Justice Malata (jornalista sul-africano) no jornal "O Estado de São Paulo", em que se fala da importância de lembrar Mandela. Para finalizar, deixo aqui alguns versos escritos há alguns anos, quando Nelson Mandela foi libertado.

"O poema negro I"
 
"O homem a quem quiseres matar nunca será este ou aquele; esses não passam de disfarces. Quando odiamos um homem, odiamos em sua imagem algo que trazemos em nós mesmos. Também o que não está em nós mesmos nos deixa indiferentes."   (Herman Hesse)


O poema negro ocupa discriminadamente
o sonho de ser feliz onde não pode...
São dois dias depois
Nelson saiu sozinho
Nelson, seria sonho?...
They set him free...


É incompreensível a estupidez
Falta de espelhos autocríticos em nós
Repentinamente a notícia de que o libertaram
nos faz felizes mas não festejamos tanto...
Há coisas ainda a serem feitas
A discriminação está enraizada
O rancor está emaranhado em corações
Em almas brancas e negras
Nélson saiu, mas ele é apenas um homem
Um símbolo de uma luta martirizado pela prisão.


O apartheid não será vencido apenas assim,
com um decreto dizendo que acabou e que todos serão iguais...
Nunca serão iguais, porque são mesmo diferentes...
E é isso que precisa ser respeitado...
São todos seres humanos
E isso é o que deve ser respeitado...
Nelson saiu, somente isso
They set him free
O poema negro ocupa discriminadamente o seu espaço
com palavras de angústia e sofrimento,
com lembranças de fome e de lágrimas...

**********

(em 12/02/1990)


"O poema negro II"
 

"O homem nunca encontrou uma definição para a palavra liberdade."   (Abraham Lincoln)


nós homens temos em comum a incerteza
do que somos, para que somos e por que somos
buscamos então as respostas diversas que preencham
o enorme vazio dentro dentro dentro dentro de nós...
questionamos também a realidade que nos cerca,
cruel em suas perspectivas sombrias



o negro dentro de nós ressurge enfim gritando
grita tão alto que nosso corpo explode em dor
pra se fazer de novo homem obsclaro obscuro
gritando de dor...


liberdade enfim buscamos todos nós, os inseguros,
em nossa ignorância de que somos afinal apenas sonho,
sonhadores sem perspectivas que não sejam sombrias...
temos o sonho de um rei
"I have a dream..."
que não será realidade apenas através de uma lei
será preciso mais, enfim,
para que o negro seja de fato libertado.


somos homens, crianças e temos medo do escuro escuro escuro
há dentro de cada um a vontade de saber
enfim se conhecer...
superar as fraquezas e a solidão
despir nossa pele, nossa humilhação,
vestir as cores de nosso coração...
conhecer em nós nossa imensidão
o quanto somos grandes ou não...


cresçamos
Nelson saiu hoje e está livre
mas continua preso entre barras
barras invisíveis aos olhos que não querem ver
que a liberdade é um conceito a se rever
e que seu sentido é difícil de se entender
Nelson saiu e aquela
esperança que o fez Mandela
continua certamente acesa dentro dele
e oxalá essa chama possa se espalhar
incendiando o coração de todo homem
porque um povo só poderá se sentir livre
quando não houver ninguém com fome
um povo só poderá ter liberdade um dia
quando não houver ninguém sem moradia
ou sem saúde ou sem emprego ou sem escola,
quando não houver necessidade de esmola...

(em 14/02/1990) 

*******************
 

The_EDN[2] The EDN, sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas.