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A bomba da Coreia do Norte

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

 
 
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É muito triste saber hoje que ainda existem países, como a Coreia do Norte, que promovem o uso de arsenal atômico como forma de defesa. É inconcebível perceber que a insanidade de uma família de ditadores possa comprometer o futuro da humanidade.

 

Não sou de debater política, muito menos política internacional, porque a concebo de forma diferente da que as pessoas do meio entendem e praticam. Vejo a política como uma maneira de conciliar percepções de vida e organização social diferentes por parte dos indivíduos de uma sociedade e, dessa forma, promover as regras mais aceitáveis para que haja uma convivência saudável. Infelizmente, a política tem sido um palco de egos e disputas que não consideram em momento algum o bem comum da sociedade.

 

Sobre o episódio em questão, vejo-o como mais uma prova da imbecilidade de um “líder”, ou melhor, um ditador que não demonstra nenhum tipo de respeito ao ser humano. É mais um “que faz na vida pública o que deveria fazer na privada”...

 

“O imbecil”

 

Na etimologia da palavra imbecil vem do latim “imbecille”, cujo significado é “sem bastão, termo formado de ‘im’: sem, e ‘bacillu’, diminutivo de ‘baculu’.

 

Para nós é “idiota, tolo, néscio”, entre outros. Lima Barreto, em seu “Diário Íntimo”, ao descrever um personagem, diz:

 

“Esse chefe de polícia, Cardoso de Castro, é a besta mais imbecil que há no Brasil. Irritado, ignorante, esfomeado de dinheiro, babuja-se todo para ficar no lugar em que está”.

 

Caberia essa descrição para Kim Jong-um, atual líder norte-coreano, bem como para seus familiares antecessores. Promotores de uma política extremista e cruel, justificada pelo falso nacionalismo ufanista, cujo único propósito é a manutenção do poder. Se pensarmos bem, considerando a etimologia da palavra, podemos dizer que Kim Jong-um personifica um bacilo que traz consigo a doença do autoritarismo absoluto e intransigente, que não permite o diálogo para solucionar os problemas da sociedade.

 

Queria escrever uma poesia sobre o imbecil...

 

Não deu... não merece...

 

Vai esse tosco texto que você leu...

 
 
 
 
 
Sobre o Autor:
The EDN
The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas

Quando Dois e Dois São Cinco

quarta-feira, 10 de junho de 2015

 

 

 

Finalmente o Supremo Tribunal Federal “resolveu” a polêmica envolvendo as tais “biografias não autorizadas” de celebridades, cuja ação foi iniciada pelo cantor Roberto Carlos, que se posicionou contrário à liberação de tais biografias. No outro lado da lide, havia o interesse da imprensa e dos biógrafos, defensores destes tipos de biografia e que entendem que a não liberação configuraria uma censura prévia às mesmas.

 

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Sem adentrar no mérito, eu inicialmente escrevi a palavra “resolveu” entre aspas porque, na minha opinião, o STF “jogou para a torcida”, ou melhor, fez “uma média” descarada com a imprensa e os biógrafos.

 

Em nome do “fim da censura”, a mais alta Corte de Justiça Brasileira decidiu, de forma unânime (lembrou alguma frase de Nelson Rodrigues?), que qualquer um pode escrever e publicar um livro sobre a vida do outro, ainda que este não concorde, em detrimento das liberdades e garantias individuais asseguradas pela “Constituição Cidadã”. A vida pública não pode ser confundida com a vida privada, o que muitas vezes acontece nestes tipos de biografia.

 

Tal decisão do STF, a meu ver, só atende aos interesses de certos biógrafos oportunistas, que vivem às custas da vida dos outros. Por outro lado, é evidente que havia o temor por parte dos ministros da Suprema Corte em verem os seus rostos estampados nas capas das Vejas e Épocas da vida, ao lado de verbetes do tipo “censura”, “obscurantismo”, etc.. Ainda mais depois que assistiram aos ícones Chico Buarque de Holanda e Roberto Carlos serem massacrados pela imprensa, em razão das suas posições contrárias à liberação de biografias não autorizadas…

 

Claro que quem sou eu para discutir alguma decisão do STF. Mas o que me incomoda é que o “Guardião da Constituição”, já há algum tempo, deixou de sê-lo. Já não vimos mais aquele STF corajoso de outrora (ainda que polêmico), que enfrentava a opinião pública em nome dos princípios e direitos constitucionalmente garantidos. O Pretório Excelso de hoje, parece manietado pelos grandes grupos de comunicação do Brasil.

 

E eu que sempre achei que as tais “biografias não autorizadas” não passavam de jogadas de marketing para render milhões aos biógrafos e às editoras, pude perceber, pelas manifestações de Chico Buarque e de Roberto Carlos, que o buraco é bem mais embaixo quando se trata de ter as suas vidas íntima e familiar devassadas e expostas em livros para a posteridade que, não podem sequer ser chamados de biografias, por se limitar apenas aos boatos, fofocas e mentiras. Creio que deveria haver uma limitação ética para isso.

 

E o que é ético, não é censurável!

 

O jornalista Geneton Moraes Neto conseguiu deixar Voltaire enrubescido de vergonha com a sua crônica no G1 (site pertencente à Rede Globo de Televisão - ex-fiadora da Ditadura Militar) intitulada “Roberto Carlos Estava Certo - Como Dois e Dois São Cinco”, ao atacar pessoalmente Roberto Carlos e o seu advogado, por defenderem ideias contrárias à liberação das fatídicas biografias não autorizadas. Soa muito paradoxal um jornalista falar em defesa da liberdade de expressão, atacando a liberdade de expressão alheia…

Detalhe: o nobre jornalista Geneton também é um biógrafo...

 

Para finalizar, vale uma reflexão: Jesus, o Cristo, teve quatro biógrafos e ainda assim, acabou crucificado...

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - Advogado e Jornalista. Chargista e Cronista da Folha de Paraopeba. Fã de Beatles, de thrillers policiais e da boa comida mineira.

A Arbitragem Nossa de Cada Dia

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

 

A arbitragem brasileira conseguiu mais uma vez manchar o Campeonato Brasileiro. A deste ano, então, mesmo com a ajuda dos tais 4º e 5º árbitros auxiliares (que na verdade, nada auxiliam!), ficou com a bola bem murcha. E o desastre foi geral, prejudicando praticamente todos os clubes da Série A – uns mais que os outros, é verdade – numa roleta russa de erros absurdos que vão dos gramados ao STJD.

 

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Alguns cronistas pregam que a arbitragem encontra-se em crise não só no Brasil mas no mundo todo. Discordo em parte: pelo menos nas partidas das quais eu assisti pela Champions League, Liga Inglesa e Campeonato Espanhol, é praticamente imperceptível a atuação dos juízes, graças ao bom nível e à preparação da arbitragem europeia. Erros eventualmente acontecem, mas não tão grotescos como os que ocorreram neste Brasileirão 2012.

 

Entretanto, cabe aqui uma ponderação: na Europa, tem-se um princípio que no Brasil, mesmo com todo o profissionalismo, dinheiro e tecnologia, ninguém “importou” ou assimilou, que nada mais é que o respeito pelas regras do jogo e pelo público pagante, o tão propalado fair play.

 

Nos campos europeus, não é comum um técnico querer “apitar” as partidas pressionando veementemente o trio de árbitros como ocorre por aqui. Os luxemburgos e os felipões da vida, somados aos dirigentes de mentalidade de time de várzea, são também responsáveis pelas tragédias em nossa arbitragem. Por aqui prevalece a cultura da catimba, da malandragem, do “ganhar no grito”. E o árbitro latino, emocionalmente inconstante por natureza, neste ambiente hostil, está fadado a “amarelar” e a cometer erros comprometedores.

 

Outro detalhe que não pode ser ignorado: o torcedor, fanático e apaixonado, tende a “enxergar de forma inconsciente”, mais erros de arbitragem contra o seu clube do que com os outros. E essa “síndrome” ocorre com todos os torcedores: de atleticanos a vascaínos, passando por cruzeirenses e gremistas. Freud Futebol Clube explica isso...

 

E para finalizar, se querem saber se sou a favor do uso da tecnologia para sanar as dúvidas durante as partidas (a polêmica no gol de mão de Barcos do Palmeiras contra o Inter, por exemplo), eu digo que não. O erro no futebol é que o torna mais humano.

 

Assim como um zagueirão “engrossa”; um goleiro “franga” e um craque “pipoca”, um árbitro e um bandeirinha também têm o direito de errar involuntariamente, por mais que isso signifique tragicamente uma eliminação ou a perda de um título.

 

Ademais, mesmo com toda a tecnologia de última geração, duvido se haveria consenso em todos os lances. O futebol ficaria “editado” e frio. E neste esporte, a emoção, a polêmica e a indignação têm mais graça que a razão...

 

 

* Crônica publicada na Folha de Paraopeba, edição de novembro de 2012.

 

 

 

Bonus Track:

 

 

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** Charge publicada na Folha de Paraopeba, edição de novembro de 2012.

 

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - Advogado e Jornalista. Chargista e Cronista da Folha de Paraopeba. Fã de Beatles, de thrillers policiais e da boa comida mineira.

Três Coisas Invendáveis: a Alma, a Honra e o Voto

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

 

Prosseguindo com o meu hercúleo e mesopotâmico combate à compra de votos, cheguei à conclusão de que existem três coisas que jamais poderiam ser vendidas: a ALMA, a HONRA e o VOTO.

 

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De tanto matutar sobre o tema, cheguei a algumas conclusões arrepiantes. O indivíduo que vende a sua ALMA, fará o seu acerto pessoalmente com o Cramulhão. O outro (ou outra) que vende a sua HONRA (nisto eu incluo o corpo), também arca individualmente pelos seus atos. Constata-se o seguinte: nas duas primeiras “modalidades de venda”, o indivíduo venal arca sozinho com as consequências de seus atos, enquanto que na “modalidade venda de VOTO”, toda uma coletividade paga o preço!

 

Em verdade, em verdade vos digo: das três “negociatas” [vendas de ALMA, da HONRA ou do VOTO], a pior é a venda do VOTO, pelos seus efeitos nefastos e dantescos que vão muito além da pessoa do indivíduo, afetando toda a coletividade ao seu redor, pondo em risco, inclusive, a vida e o futuro de sua família e de seus filhos. Por outro lado, o político que compra votos não é suficientemente digno, competente e honesto para representar o seu povo!

 

Nesta reta final, reconheço que esta minha obsessão está beirando à paranoia, mas insisto que a manutenção do voto livre tem de prevalecer numa Sociedade tida como Livre e Democrática.

 

Embora desagrade a alguns, não me arrependo de combater o bom combate!

 

 

(Bonus Track):

 

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Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - Advogado e Jornalista. Chargista e Cronista da Folha de Paraopeba. Fã de Beatles, de thrillers policiais e da boa comida mineira.

Extra! Extra! Ramirez Assinou Com o América-MG

segunda-feira, 23 de maio de 2011

 

 

O craque Ramires, médio-volante do Chelsea, milionário time da Inglaterra, teve grandes atuações pelo Cruzeiro, o que acabou credenciando o jogador às convocações da Seleção Brasileira, atendendo às expectativas. Daí, a sua transferência para o futebol europeu, foi apenas uma questão de tempo.

 

Lépido, dono de uma boa técnica e muito inteligente, Ramires é um volante de origem, mas que tem facilidades inatas para se mandar para o ataque e marcar gols como um legítimo atacante.

 

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Já o Ramirez (com “z”), de fato assinou e jogou pelo América-MG, na década de 80, conforme figurinha do clássico álbum oitentista “Futebol Cards” do Chicletes Ping Pong

 

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Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

A Lei Eleitoral, o STF e a Constituição – Próxima Parada: Caberá Retroatividade na Lei da Ficha Limpa?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

 

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Publiquei no periódico A Folha de Paraopeba, uma instigante crônica com o título “Cadê os Guardiões da Constituição?”, acerca da posição claudicante do Supremo Tribunal Federal, em decidir sobre a aplicação da Lei da Ficha Limpa nas Eleições 2010.

 

Embora já colabore com o jornal há quase um ano, sempre evitei publicar as crônicas de lá no blog e vice-versa.

 

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Porém, devido à boa repercussão do texto entre os leitores do periódico, decidi republicar virtualmente o texto:

 

CADÊ OS GUARDIÕES DA CONSTITUIÇÃO?

No último dia 23 de março, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) reuniram-se em plenário para decidirem sobre a aplicação ou não da Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar nº 135/2010) nas eleições de 2010. Por 6 votos a 5, os ministros deram provimento ao Recurso Extraordinário (RE) 633703/MG de Leonídio Correa Bouças, candidato à deputado estadual em Minas Gerais, que tinha o seu registro negado com base nessa lei.

O resultado tardio – a aplicação da lei somente nas eleições de 2012 – não me surpreendeu. Entretanto, causou frustração para os incautos e mais desgaste para a classe política e para o próprio STF.

Havia uma expectativa muito grande em torno desta decisão, principalmente para os que defendiam a imediata aplicação da lei, bem como para os candidatos que obtiveram votação expressiva nas últimas eleições, mas que foram barrados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com base na Lei da Ficha Limpa.

A votação encerrou-se de forma bastante peculiar, pois 10 ministros do STF já haviam votado e o placar estava incrivelmente empatado (5 x 5). O 11º ministro (Eros Grau) havia aposentado e faltava o voto de seu substituto, que acabou sendo Luiz Fux, magistrado experiente, de convicções jurídicas firmes, cujo currículo contempla um notável trabalho no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o que lhe credenciou a ocupar um assento na Corte Suprema e assim descascar mais este abacaxi.

A questão era a seguinte: a Lei da Ficha Limpa, sancionada em junho de 2010, poderia ser aplicada nas eleições do mesmo ano?

De antemão, o artigo 16 da Constituição Federal diz claramente que não: "A lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência".

Contrariando o que dispunha a Constituição, o TSE havia interpretado que a Lei da Ficha Limpa poderia ser aplicada nas eleições do mesmo ano, entendimento que prevaleceu até então, influenciando inclusive decisões do desfalcado STF, barrando vários candidatos e que levou alguns a recorrerem ao Supremo, sob a alegação de que as regras do jogo eleitoral foram alteradas em flagrante descumprimento constitucional.

E com um voto muito bem fundamentado, o ministro Luiz Fux desempatou a peleja em favor da Constituição. Ou seja: a Lei da Ficha Limpa está valendo, exceto para as Eleições de 2010, sob pena de ferir princípios previstos na Carta Magna. "A iniciativa popular [Lei da Ficha Limpa] é mais do que salutar, desde que em consonância com as garantias constitucionais", resumiu com firmeza o fiel da balança.

Luiz Fux aliou-se à corrente puxada pelo ex-presidente Gilmar Mendes. A corrente majoritária levou em consideração os princípios da anualidade e da anterioridade. Traduzo aqui os jargões jurídicos: o princípio da anualidade garante que uma lei que alterar o processo eleitoral não poderá ser aplicada à eleição que ocorra até um ano da data de sua publicação, enquanto que o princípio da anterioridade garante que a lei eleitoral não pode ser aplicada aos políticos condenados antes da promulgação da própria lei.

Nada contra à boa intenção da Lei da Ficha Limpa, pois trata-se de um importante mecanismo de moralização eleitoral contra políticos incompetentes e desonestos. Mas o resultado do STF já era esperado por dois detalhes. O primeiro, é que a redação do artigo 16 da Constituição é de uma clareza espantosa, que não justificava o entendimento adotado anteriormente pelo TSE e STF quanto à aplicação de uma lei eleitoral nas eleições do mesmo ano. O segundo detalhe, é que eu nunca vi leis, que alterem regras eleitorais, serem aplicadas primeiramente nas eleições federais, estaduais e distritais, sem antes terem as eleições municipais como cobaias!

O STF, que só age se provocado, reconheceu, por unanimidade, a repercussão geral da controvérsia jurídica suscitada e  autorizou os ministros a aplicarem, monocraticamente, o entendimento adotado no julgamento aos demais casos semelhantes, com base no artigo 543-B do Código de Processo Civil.

Com esta decisão, resolvidas as questões da anualidade e da anterioridade da Lei da Ficha Limpa à luz da Constituição Federal, o STF deixou claro que pelo artigo 16 da Carta Magna, não caberá retroatividade na aplicação da lei eleitoral. Isso quer dizer que acaso um cidadão tenha sido condenado em alguma das hipóteses da Lei da Ficha Limpa, antes de sua entrada em vigor, não será considerado inelegível para as Eleições de 2012. Tanto é que a conjugação verbal utilizada pelo legislador da Lei da Ficha Limpa está no futuro do subjuntivo: “os que forem condenados” [a partir da vigência da lei, ou seja, junho de 2010].

E isso ficou ainda mais evidente quando o presidente do STF, Cézar Peluso, ao proclamar o resultado da votação, advertiu sobre a inadequada aplicação retroativa da Lei da Ficha Limpa: "É uma circunstância histórica que nem as ditaduras ousaram fazer".

O lamentável é que o STF já poderia ter resolvido tais impasses em face da Lei da Ficha Limpa quando julgou dois recursos anteriores, meses antes, e assim teria evitado essa sensação de insegurança jurídica. Mas parece que alguns ministros “pipocaram” ou quiseram “fazer média para a opinião pública”, em vez de simplesmente colocar em prática o básico que aprenderam nas faculdades de Direito.

O suspense sem cabimento e o placar apertado (6 x 5), envolvendo uma questão em torno do artigo 16 da Constituição, de redação clara e incontroversa, deixa uma indagação preocupante: afinal, o STF está ou não comprometido em ser o Guardião da Constituição?

 

A próxima parada: haverá retroatividade na aplicação da Lei da Ficha Limpa? Com a palavra, o Supremo…

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

Panela de cobre

terça-feira, 17 de agosto de 2010

 

Vejo notícia no jornal Estado de Minas, reproduzida no respectivo sítio, de que Minas proibirá o uso de panelas de cobre. Soa-me um pouco absurda a notícia e fico meio atônito.

 

 

 

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Criado que fui em cidade do interior, em casa onde tacho de cobre era usado para fazer doce e para fritar toicinho para torresmo e gordura de guardar carne de lata, fico sem entender a princípio. Leio a notícia toda e vejo que é coisa da Vigilância Sanitária do estado, fundamentado em resolução de 2007 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo a autarquia, o uso do cobre das panelas e utensílios na produção alimentícia, desde que absorvido pelo organismo, gera problemas neurológicos e psiquiátricos (quem criou essa lei deve ter comido muito doce, carne de lata e torresmo de Minas), danos ao fígado, rins, nervos e ossos, além da perda de glóbulos vermelhos.

 

 

 

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Fico pensando com os botões que minha blusa não tem, nesta noite fria em que redijo esse post, que muita gente morreu nesses séculos que passaram por causa disso. Pobrezinhos! Se nossos antepassados tivessem na época uma Anvisa e uma Vigilância Sanitária tão eficiente, provavelmente teriam vivido muito mais e não teriam tido tantos problemas de saúde.

 

 

 

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Vai dar saudade! Aqueles deliciosos doces de figo, de cidra e de mamão verde (e ainda mais verdes nos tachos de cobre), de laranja da terra, de leite e aquela goiabada cascão... Nunca mais em Minas, minha mais melancólica memória de mãe e de mães. Aliterações alteradas em assonâncias, substâncias do passado irretornável, neologismo surgido da necessidade de palavra adequada.

 

 

 

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Escrevo esse post penalizado e ao mesmo tempo pensativo... Será que no interiorzão, como nessa minha terra de Clara Nunes, Dona Eva vai seguir essa lei? De meu lado, quanto a essa lei, uma leitoa comprarei no mês de setembro e outra no início de dezembro, lá na fazenda do Celião do Beira-Rio, daqueles bichos criados na larga no pasto, caipira que fala uai. Vou fritar em tacho de cobre e comer com mandioca e laranja capeta para cortar a maldade, cultivando a tradição de Minas, sem medo do aviso da Anvisa.

 

 

 

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Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas

Armando Peladas — Saudades do velho cronista

terça-feira, 30 de março de 2010



Abro esse post com uma crônica minha, humildemente inspirada no estilo do Armando Nogueira, que era um estilista. Escrevia sobre futebol com uma carga literária, dramática, trazendo a essência do esporte mais admirado do mundo.



Peladas à tarde


Armandinho chegou correndo da escola, com o rosto todo suado. Jogou a pasta sobre a mesa da sala, tirou a camisa da escola e o chinelo e deixou por ali mesmo. Sua mãe, a Sá Isa, ainda não tinha chegado do serviço na casa da Dona Laura. Aproveitaria para jogar bola no campinho com os amigos da rua.


A turma toda já estava lá. O Joca tinha levado a bola de capotão furada só um pouquinho. Era melhor que a bola do Zequito, de plástico duro, ressecado, que queimava a pele de quem ficasse na frente. Além disso, bola um pouquinho furada de capotão sempre mantinha um pouco de ar, não picava muito, não corria muito naquela ladeira íngreme que era o campinho e não machucava, mesmo que a cabeça do dedão estivesse toda regaçada. E as cabeças dos dedões sempre estavam regaçadas.


clip_image001Era final do campeonato. Todos queriam ganhar. Seu time já estava escalado, mas faltava um: o Lombriga. Cadê aquele folgado? Tinham que começar logo o jogo, senão a Sá Isa chegava e acabou-se. Nada de jogo com aqueles moleques da rua.


Ninguém sabia do Toninho Lombriga. Ele não tinha ido à escola naquele dia. Resolveram começar sem ele. Ia ser difícil, porque do outro lado tinha o melhor goleiro do bairro, talvez do mundo: o Iachinho. Ninguém tinha ideia de onde tinha vindo esse apelido. O nome dele mesmo era João de Arimateia Correia de Oliveira. Pegava muito, mesmo sendo meio gordinho e baixinho. Para vencê-lo, só mesmo os chutes e os dribles do Toninho Lombriga.


O jogo estava complicado, o outro time não atacava muito, mas se defendia bem demais. E os contra-ataques eram sempre muito perigosos. Até que fizeram um gol. Armandinho amaldiçoou o Lombriga. Outro gol do outro time e nova maldição.


Acabou o primeiro tempo e os meninos correram todos para a biquinha do chafariz para tomar água. Foi quando veio a notícia: o Toninho Lombriga não tinha aparecido porque a mãe dele tinha morrido. Foi atropelada. Armandinho ficou sem-graça e retirou todas as maldições, batendo na própria boca com força. Tinham que terminar o jogo. Voltaram e logo descobriram como superar o Iachinho. O Joca deu a ideia e o Armandinho fez xixi na bola. O Iachinho era muito nojento. Não pôs a mão em nenhuma bola mais. Se dava para pegar com o pé, tudo bem. Viraram o jogo. Não foi bonito o que Armandinho fez, mas ganharam. Ele queria dar a vitória ao Lombriga.


De repente, um assovio avisou do perigo. Sá Isa vinha chegando. A pelada acabou abruptamente e novo campeonato foi marcado para o dia seguinte. E seria nova final, considerando que na rua só havia os dois times mesmo, que nem sempre eram os mesmos, pois dependia do sorteio.


Sá Isa chegou falando da mãe do Lombriga. Estava chorosa. Eram amigas. Como ele e o Toninho Lombriga. Mandou o Armandinho se arrumar. Tinham que ir ao velório. Armandinho não gostava muito dessas coisas. Mas achou bom, pois assim contaria ao Lombriga como foi a final e que eles tinham vencido por ele.


Quando chegou lá, ao chegar perto do Lombriga, percebeu no olhar dele que algo tinha mudado. Talvez o Lombriga não se importasse mais com futebol. Talvez nunca mais jogasse futebol na vida. O Lombriga, que era um menino alto para sua idade, o mais grandão da turma, parecia pequeno.


Passaram-se meses e o Lombriga não jogou mais. Estava trabalhando na loja do tio. Não ia à escola mais. Não conversava mais sobre o que o resto da turma conversava. Um dia, ele falou para o Armandinho não chamá-lo mais de Lombriga. Ele era o Antônio Carlos.


Armandinho e os amigos entenderam tudo. Sá Isa explicou que, quando um menino perde a mãe, ele deixa de ser menino e vira homem.


Armandinho não queria virar homem. Ele não queria perder a mãe... Queria simplesmente continuar suas peladas depois da escola, escondidas da mãe, as brincadeiras com os amigos... Não queria se tornar um homem.


(The EDN)

***********



Morreu Armando Nogueira. Essa frase é péssima para iniciar qualquer texto, inclusive esse post. Mas é verdade. Todos os amantes do futebol, na sua essência, bem como os admiradores do bom jornalismo, sentem muito em ouvi-la. Armando Nogueira era uma lenda viva e continuará sendo lenda, ainda que não esteja mais aqui, desde segunda-feira, 29/03/2010 aos 83 anos de idade, no Rio de Janeiro.


clip_image003Acreano de Xapuri (a mesma cidade onde também nasceu o seringueiro e líder sindical Chico Mendes), nascido a 14 de janeiro de 1927, pioneiro do telejornalismo, foi um dos responsáveis pelo início do jornalismo na Rede Globo. Seus pais eram cearenses que emigraram para o Acre, onde viveu até por volta de 17 anos de idade, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Fez curso de Direito, mas queria mesmo ser jornalista.


Trabalhou 13 anos no Diário Carioca, que contava, na época (1950), com alguns dos mais expressivos jornalistas do Rio de Janeiro: Otto Lara Resende, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, entre outros. Foi uma época de aprendizagem para Armando.


Além do Diário Carioca, colaborou também com o Diário da Noite, com as famosas revistas Manchete e O Cruzeiro, e com o Jornal do Brasil.


Segundo a Wikipedia, foi pioneiro na televisão brasileira, a partir de 1959, na primeira produtora independente do país, dirigida por Fernando Barbosa Lima, onde escreveu textos para os locutores Cid Moreira e Heron Domingues lerem na antiga TV-Rio. Fez inúmeros outros trabalhos na área do jornalismo na televisão, mas sua paixão sempre foi o esporte, em especial o futebol. A partir de 1954, esteve presente na cobertura todas as Copas do Mundo e, desde 1980, de todos os Jogos Olímpicos.


Mas um episódio interessante de sua vida, mostra a ética que sempre norteou o seu trabalho. Transcrevo abaixo literalmente o que diz a Wikipedia:


“(...) Mesmo com todos esses serviços prestados, envolveu-se em uma rumorosa polêmica em 1989, dentro da própria Globo. No segundo turno das eleições presidenciais daquele ano, a emissora promoveu um debate entre os candidatos Fernando Collor de Melo e Luiz Inácio Lula da Silva. No compacto do evento, que foi exibido no dia seguinte de sua transmissão no Jornal Nacional, houve uma edição que favoreceu claramente o candidato Collor, que desde o início foi apoiado - direta ou indiretamente - pelas empresas de Roberto Marinho. Na qualidade de diretor de jornalismo, Armando foi pessoalmente a Roberto e fez duras críticas à sua postura e a dos funcionários que realizaram aquela edição, dizendo que não compactuava com aquilo. Por causa disso, acabou aposentado pela alta cúpula e desligou-se da emissora definitivamente no ano seguinte. Passou, então, a se dedicar integralmente ao jornalismo esportivo (...).”


A partir do início de 1990, Armando Nogueira deixou a TV Globo e dedicou-se quase que exclusivamente ao jornalismo esportivo. Foi comentarista na TV Cultura (1992 a 1993), na TV Bandeirantes (1994 a 1999) e no SporTV, canal da Globosat, participando em programas esportivos diversos (1995 a 2007). Manteve uma coluna publicada em 62 jornais brasileiros, um programa no SporTV, um programa de rádio e um sítio na Internet. Tinha uma empresa chamada Xapuri Produções, que faz vídeos institucionais para empresas. Fazia, além disso, palestras motivacionais. Escreveu dez livros, todos sobre esportes.


Armando Nogueira era desportista, acima de tudo. Praticou voos em ultraleves, tendo sido fundador do clube carioca da modalidade. No futebol, foi torcedor apaixonado do Botafogo.


Deixo a seguir quatro crônicas do mestre, de quem já estamos com saudades.



A Massa
(Armando Nogueira)


Torcidas, haverá as mais numerosas (Flamengo) ou mais conhecidas por sua grandeza (Corinthians), mas nenhum séqüito futebolístico brasileiro se compara ao do Clube Atlético Mineiro em mística apaixonada, em anedotário heróico, em poesia acumulada ao longo dos anos.

"A Massa", como é simplesmente conhecida em Minas Gerais, compartilha com a torcida corinthiana ("A Fiel") a honra de deixar-se conhecer com um substantivo ou adjetivo comum transformado em nome próprio, inconfundível.

A Fiel, A Massa: poucas outras torcidas terão realizado tal operação de mutação de um nome comum em nome próprio.

Muito distintas são, no entanto, as torcidas dos alvi-negros paulistano e belo-horizontino: quem já vestiu a camisa do time do Parque de São Jorge sabe que a Fiel é fiel em sua paixão, não em seu apoio. Na derrota, a Fiel é implacável; não desaparece, como a torcida do Cruzeiro. Está sempre lá.

Mas é capaz de crucificar com um pequeno manifestar-se de sua raiva. Na vitória, cobra cada vez mais, e reinstala aí sua insatisfação, cuja raiz quiçá esteja no mal-resolvido trauma dos 23 anos sem título, e do grande pesadelo de duas décadas chamado Pelé. A Fiel é fiel, e sempre o foi, mas sua fidelidade se nutre de um descompasso entre a alma do torcedor e a alma do time.

No caso do atleticano, a alma do time não é senão a alma da torcida.

Toda a mística da camisa, das vitórias sobre times tecnicamente superiores (e também das derrotas trágicas e traumáticas), emana da épica, das legendárias histórias que nutre sua apaixonada torcida: nem o Urubu, nem o Porco, nem o Peixe, nem a Raposa, nem o Leão, nem nenhum animal mascote se confunde com o nome do time, com sua identidade, com sua alma mesma, como o Galo com o Atlético Mineiro. E Galo é o nome da torcida (GA-LO), bissílabo cantável e entoável como grito de guerra que ela eternizou ao encarnar em si o espírito do animal. Nenhum outro time é conhecido por tantas vitórias improváveis só conquistadas porque a massa empurrou.

"Quem possui uma torcida como esta, é praticamente impossível de ser derrotado em casa" (Telê Santana).

Pelos idos de 69 ou 70, o timaço do Cruzeiro já tetra ou pentacampeão entrava em campo mais uma vez e parecia que de novo ia humilhar o Atlético, que já amargava o quinto aniversário do Mineirão sem nenhum título estadual. A superioridade técnica de Tostão, Dirceu Lopes, Natal, Raul, Piazza e cia. era simplesmente incontestável. Mesmo naquele clássico durante vacas tão magras, a massa atleticana era, como sempre foi, maioria no Mineirão. Impotente, ela viu Dirceu Lopes abrir o placar e o time do Cruzeiro massacrar o Galo durante 45 minutos. No intervalo, a Massa que cantava o hino do Atlético foi inflamada por um recado de Dadá Maravilha pelo rádio: "Carro não anda sem combustível".

A fanática multidão encheu-se de brios, fez barulho como nunca, entoou o grito de guerra como nunca, encurralou sonoramente a torcida cruzeirense, e o time do Atlético infinitamente inferior, liderado pelo artilheiro Dario e pelo seu grande goleiro (como é da tradição atleticana) Mazurkiewcz - virou o placar para 2 x 1 sobre o escrete azul, e abriu caminho para a reconquista da hegemonia em Minas, selada com o título estadual de 70 e o Brasileiro de 71. Nenhum dos jogadores atleticanos presentes nessa vitória jamais se esqueceu da energia que emanava das arquibancadas, e que literalmente ganhou o jogo.

Também as derrotas tradicionalmente contribuíram para a mística e paixão atleticana: como em 1998, quando o visitante Corinthians trouxe ao Mineirão sua máquina que se preparava para ser bicampeã brasileira e campeã mundial. O Galo se recuperava no Campeonato Brasileiro, vinha de uma vitória sobre o Grêmio no Olímpico, e a Massa mais uma vez lotou o estádio. Com seu toque de bola, o Corinthians envolveu o time atleticano, e no meio do segundo tempo já aplicava impiedosos 5 x 0, enquanto tocava a bola, colocava os atleticanos na roda e esperava o fim do jogo. Vendo seu time humilhado por um adversário superior dentro de seu próprio terreiro, massa se levantou, e cantou durante mais de 10 minutos o belo hino, mais alto e com mais amor que nunca. Nenhum jogador presente se esqueceu, e um ano depois o Galo devolveria ao Corinthians os 5 x 1 do Mineirão, com sonoros 4 x 0 no Maracanã.

Como no silêncio sepulcral que envolveu o Mineirão em março de 1977, quando a grande equipe atleticana de Cerezo, Reinaldo, Paulo Isidoro, João Leite e Marcelo perdeu nos pênaltis o título que todos já consideravam seu, incluindo-se, às vezes parece, os próprios adversários são-paulinos. O time do Atlético, mesmo jogando sem Reinaldo, injustamente suspenso, foi empurrado pela torcida, mostrou-se muito superior ao do São Paulo, como havia feito durante todo o campeonato em que acumulou 17 vitórias, 4 empates e nenhuma derrota, encurralou o adversário durante 120 minutos, mas o gol não saiu. O título é perdido nos pênaltis, mesmo depois de duas grandes defesas de João Leite em cobranças são-paulinas. Ângelo, um dos craques do jovem time atleticano, deixou a partida pisoteado por Chicão, e nunca mais seria o mesmo.

O Galo, base da seleção brasileira de Osvaldo Brandão, sai de campo vice-campeão invicto, com os 11 jogadores abraçados, 10 pontos à frente do campeão, e a Massa recebe aí sua grande tarefa dos próximos anos: realizar o luto pelo enorme trauma. Começou a tarefa no domingo seguinte às 10 da manhã, levando legiões de bandeiras para uma amarga partida contra o Bahia no Mineirão.

Nenhuma outra derrota de um favorito no Brasileirão se revestiria de tanta mística apaixonada. A partir daí essa Massa acumularia 10 títulos mineiros em 12 anos, e uma seqüência de campanhas sensacionais no Brasileirão (o Atlético Mineiro é o time que mais pontos conquistou nos Campeonatos Brasileiros), interrompidas na final ou semifinal, em jogos fatídicos (Flamengo-80, Santos-83, Coritiba-85, Guarani-86, Flamengo-87, Corinthians-88).

A magia atleticana se encarnaria no seu torcedor mais famoso, Sempre, cujo nome real não se conhece, tal é força do apelido. Durante décadas, Sempre ocupou as arquibancadas do Independência e do Mineirão, com sua bandeira e seus ditos legendários. Nunca deixou de comparecer e nunca vaiou o time, embora chorasse nas derrotas. Foi dos primeiros a entoar o hino composto por Vicente Motta em 1969, e depois aprendido por milhões em todo o Brasil. Abria e fechava o clube diariamente, e participou de epopéias memoráveis da massa atleticana, como quando a multidão carregou no colo o artilheiro Ubaldo, pentacampeão mineiro de 1956, de sunga, ao longo dos 5,5 quilômetros que separam o estádio Independência da Praça Sete, ou como quando 20.000 atleticanos invadiram o Maracanã e empurraram o time à conquista do Primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971, sobre o Botafogo de Jairzinho.

O Furacão de 70 sentiu seu peso de novo cinco anos mais tarde, na decisão do Mineiro de 76, quando a Massa, mesmo tendo comemorado só 1 dos últimos 11 campeonatos mineiros, tomou conta do Mineirão para empurrar uma turma de meninos de 18-21 anos (de nomes Reinaldo, Cerezo, Paulo Isidoro, Danival, Marcelo) a vitórias contundentes sobre o campeão da Libertadores.

Estava aberto o caminho para o hexacampeonato de 78-83.

"Se houver uma camisa alvi-negra pendurada no varal num dia de tempestade, o atleticano torce contra o vento". O achado do cronista Roberto Drummond resume a mitologia do Galo: contra fenômenos naturais, contra todas as possibilidades, contra forças maiores, a torcida atleticana passa por radical metamorfose e se supera. Superou-se tantas vezes que já não duvida de nada, e cada superação reforça ainda mais a mística, como uma bola de neve da paixão futebolística.

Nenhum atleticano hesitaria em apostar na capacidade da Massa de transformar o impossível em possível a qualquer momento, de fazer parar aquela tempestade que açoita o pavilhão alvi-negro deixado solitário no varal.

Não surpreende, então, o sucesso que tiveram os jogadores uruguaios que atuaram no Atlético Mineiro, do grande Mazurkiewcz ao maior lateral-esquerdo da história do clube, Cincunegui. Se há uma mística de garra e amor à camisa que se compara à atleticana, é a da celeste, não mineira, mas uruguaia. Só à seleção uruguaia a pura paixão por um nome e um símbolo levou a tantas vitórias inacreditáveis, improváveis, espíritas, ou puramente heróicas. Em 1966, as duas camisas legendárias se encontraram, e o Galo derrotou o Uruguai duas vezes (26/04/66 - Atlético 3 x 2 Uruguai, 18/05/66 - Atlético 1 x 0 Uruguai).

Ao contrário das torcidas conhecidas por sua origem étnica (Palmeiras, Cruzeiro, Vasco), por sua origem social (Flamengo, Fluminense, Grêmio, São Paulo), ou por seu crescimento a partir de uma grande fase do time (Santos), qualquer menção da torcida do Atlético Mineiro evoca, invariavelmente, substância mesma que constitui o torcer. O amor ao time na vitória e na derrota, o apoio incondicional, a garra, a crença de que sempre é possível virar um resultado, o hino entoado unissonamente: a legião fanática que ama o Galo acima de tudo sabe que ser atleticano é unir-se num estado de espírito, compartilhar uma memória, e fazer da esperança uma permanente iminência.

A massa atleticana é a prova maior de que, mesmo em época de profissionalização total do futebol, e do negócio futebol, para o povo brasileiro este é acima de tudo paixão por uma cor, um nome, um símbolo, a memória de um instante que pode ser um gol, um campeonato, um abraço ou um beijo. Galo é o nome que mais radical e verdadeiramente expressa, para tantos milhões de brasileiros, o inexplicável dessa paixão.

O Galo é o único clube a ter vencido a Seleção Brasileira. E não foi qualquer uma. Ela entrou em campo com Felix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo (Everaldo); Piazza e Gérson (Rivelino); Jairzinho, Tostão Zé Maria), Pelé e Edu (Paulo César). O Galo venceu com Mussula, Humberto Monteiro, Grapete, Normandes (Zé Horta) e Cincunegui (Vantuir); Oldair e Amauri (Beto); Vaguinho, Laci, Dario e Tião (Caldeira).


Peladas

(Armando Nogueira)


Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto.


E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe.” Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.


Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro jogo sem camisa.


clip_image005Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula.


Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.


Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: “Copa Rio-Oficial”, “FIFA - Especial.” Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepção do Itamarati.


No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha.


Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura.


Nova saída.


Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas.


O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar.


Em cada gomo o coração de uma criança.


(Do livro “Os melhores da crônica brasileira”, José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1977, pág. 29)



Pelada de Subúrbio

(Armando Nogueira)


Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma clip_image007chácara silenciosa, de muros altos.


A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória.


Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro.


Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara.


A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola.


No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.


(Do livro “Os melhores da crônica brasileira”, José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1977, pág. 22)


México 70

(Armando Nogueira)


México 70 - E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus.


Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro.


E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva.


O campo do Azteca, nesse momento, é um manicômio: mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria.


Agora, quase não posso ver o campo lá embaixo: chove papel colorido em todo o estádio. Esse estádio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado à corrida de touros.


Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correção dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma só expulsão. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, músculo a músculo, coração a coração, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em Munique 74.


Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes.


clip_image009Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis países em luta ardente, durante vinte e um dias — ninguém morreu. Não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol.


Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo — nunca durante o jogo.


Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara.


Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância.


A taça de ouro é eternamente tua, amiguinho.


Até que os deuses do futebol inventem outra.


(Texto extraído do livro “O melhor da crônica brasileira”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1997, pág. 26.)

Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas

O sensacionalismo na imprensa

terça-feira, 23 de março de 2010

 

É muito difícil julgar o papel da imprensa quando nos deparamos com momentos como o atual, em que um fato de grande relevância como o julgamento dos Nardoni ocupa espaço quase que exclusivo em toda a mídia nacional. Cabem sempre questionamentos sobre qual é o limite disso tudo.

 

 

O jornalista Luciano Martins Costa, em seu texto “O espetáculo do júri” de 23/3/2010 no sítio do Observatório da Imprensa, comenta sobre o espetáculo público que virou o julgamento e coloca em suspeita o veredicto que o júri tomar, devido à enorme carga emotiva instaurada sobre o caso. Martins Costa usa as seguintes palavras:

“Os jornais de terça-feira (23/3) procuram reproduzir o que foi o primeiro dia do julgamento do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Trotta Jatobá. Eles são personagens centrais no caso do assassinato da menina Isabella, que foi atirada do sexto andar de um edifício em São Paulo, no dia 29 de março de 2008. (...)

 

De qualquer maneira, seja qual for o veredicto, não haverá como assegurar que a Justiça terá sido feita. A invasão do local do acontecimento por policiais sem nenhuma coordenação, a demora na lacração do apartamento, a ação indiscriminada de repórteres e populares nas redondezas podem ter prejudicado as provas periciais. (...)” (Luciano Martins Costa, in “O Espetáculo do Júri”, no sítio do Observatório da Imprensa)


Vale ler também o texto “Uma conveniente amnésia jornalística”, de Sylvia Moretzsohn, publicado em 23/3/2010 no mesmo Observatório da Imprensa. Faz-nos lembrar que a notícia passa a ser um grande artigo de venda publicitária para as empresas de comunicação e, na grande maioria dos casos, não há nenhum senso ético envolvido.

 

lendo um jornal

O que posso comentar a respeito nesse post é aquilo que coloquei no início: é muito difícil julgar o que seria ético. Até mesmo postar neste blog algo a respeito do caso pode parecer oportunismo. Mas, sinceramente, não foi a intenção. Quero apenas chamar a atenção para sermos mais críticos em relação ao que vemos/lemos/ouvimos na mídia nacional, especialmente quando percebemos que, em torno da notícia, armou-se um grande circo. A imprensa tem um papel conscientizador e formador de opinião. Essa responsabilidade é grande e deve ser exercida eticamente.

 

 

Quando vemos situações assim como o caso Isabella, percebemos que certamente existe algo mais do que o simples interesse da imprensa em divulgar a notícia e informar a sociedade.

 

Ao invés de versos, para os quais não sou conduzido neste momento, deixo-lhes uma tirinha buscada no Google, que achei conveniente para o fechamento desse post.

 

menina_isabella

 

 

Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas