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Clube do Coração

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

 

 

 

 

O que leva uma pessoa a torcer por um clube de futebol, a carregar no coração para o resto de sua vida uma instituição esportiva e a defendê-la sem nunca ter recebido nada em troca?

 

Torcedor_Harley_Coqueiro_Invicioneiros

 

Para os amantes do futebol, amores, profissões e até religiões, vêm e vão. Mas um clube de futebol, estando no auge ou em decadência, consegue uma fidelidade canina de seu torcedor, que às vezes beira a insensatez.

 

Geralmente, essa paixão surge na infância, ora por influências familiares, ora de amigos, mas principalmente, quando o clube encontra-se no auge, vencendo jogos e erguendo troféus. Habitualmente, gosta-se primeiro do time e depois do clube. Mas é antes de tudo, um sentimento espontâneo.

 

No meu caso, vou lhes contar como tudo começou. No fim da década de 1970, a minha família morava em Caconde, cidadezinha do interior paulista, na divisa com Minas. O meu pai viajou para a capital paulista e trouxe duas camisas do Atlético Mineiro: uma para mim, outra para o meu irmãozinho de seis anos. Eu tinha oito anos e confesso que à primeira vista não me entusiasmei com aquele presente: camisa alvinegra listrada igual às de juiz de futebol americano, um escudo simples, bordado com as iniciais CAM e, o pior, não era de nenhum clube paulista como as que os meus amiguinhos vestiam. Entretanto, era a primeira camisa de futebol que eu vestiria na vida!

 

O meu pai contou algumas histórias como as dos lendários goleiros Mão de Onça e Kafunga. E eu, no interior paulista, só ouvia os meus amiguinhos falarem de Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos. Até que num certo dia, eu e o meu irmãozinho, “vestidos a caráter”, fomos acompanhar o nosso pai a um supermercado de descendentes de italianos. Ficou gravada em minha memória quando o gerente perguntou ao meu pai, apontando para nós e com um sotaque italiano: “Essa é a camisa do Galo?” (!?).

 

Com a minha alma de menino, achei muito curioso um clube de futebol ser conhecido pelo seu mascote, ainda mais que em São Paulo, um dos mais importantes centros futebolísticos do Brasil, não se dava tanto destaque ao mascote como se dá ao clube mineiro, que é tão conhecido pelo seu mascote quanto pelo seu nome institucional. Além disso, trata-se o mascote de uma bela ave, carregada de simbolismo e misticismo, que representa a valentia, cujo canto personifica a liberdade e a esperança. Pesquisando sobre isso, vi que o chargista Mangabeira, na década de 40, não poderia ter sido mais feliz ao retratar o Atlético Mineiro em suas charges como um galo de briga, ressaltando a raça e a valentia de seus jogadores.

 

Em 1980, eu mudaria com a família para Contagem, na região metropolitana de BH. 1980? Ah, nesse ano o Galo montaria um de seus melhores esquadrões. E outra coisa me seduziria de vez: o belo hino do clube, composto por Vicente Motta, que de forma muito inspirada e genial, começa sendo cantado na primeira pessoa do plural (“Nós somos do Clube Atlético Mineiro/Jogamos com muita raça e amor.”), dando a ideia de coletividade, como se todos os torcedores também entrassem em campo para a peleja. Mas isso seria um bom tema para outras crônicas...

 

 

[Crônica publicada na Folha de Paraopeba – edição de setembro de 2013]

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - Advogado e Jornalista. Chargista e Cronista da Folha de Paraopeba. Fã de Beatles, de thrillers policiais e da boa comida mineira.

A Tragédia do Sarrià

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

 

Historicamente, o Brasil participou de cinco conflitos armados internacionais: “Guerra da Cisplatina”, “Guerra do Prata”, “Guerra do Uruguai”, “Guerra do Paraguai” e a “Batalha de Monte Castelo”. Porém, na tarde de 5 de julho de 1982, o Brasil inteiro se sentiu como se tivesse perdido uma guerra. Tomou conta do povo brasileiro um sentimento de desolação equiparado ao de uma Alemanha e Japão, juntos, quando derrotados na Segunda Guerra Mundial, ressalvadas as devidas proporções...

 

menino_sarria

 

Faço menção à histórica “Tragédia do Sarriá”, na Copa da Espanha em 1982, quando uma das melhores seleções de futebol de todos os tempos foi incrivelmente eliminada por uma esforçada Itália, no antigo estádio do “Sarrià” (grafado originalmente desta forma), em Barcelona.

 

Claro que, até aquela copa, zebras desse tipo não eram nenhuma novidade: vide a Hungria, em 1954; e a Holanda, em 1974. Mas vá tentar explicar isso para um menino de onze anos, que sonhava tanto com aquela conquista!

 

Como poderia aquela seleção, com um futebol de plasticidade e genialidade dignas das obras de Picasso e Salvador Dalí, e com um “quadrado mágico” composto por Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, ter sido eliminada daquela copa, quando havia um consenso mundial de que aquela era a seleção credenciada a conquistar o título?

 

Pois bem, a Seleção Canarinho buscava, na Espanha, a redenção: o título de "campeã moral" na Argentina, em 1978, quando a equipe da casa sagrou-se a vencedora, sob circunstâncias duvidosas, o que incomodava a comissão técnica e os craques brasileiros. O título na Espanha era a missão a ser cumprida.

 

Até aquele momento, a equipe, então comandada pelo mestre Telê Santana, fazia uma campanha indubitável. Vencera a ex-URSS, a Escócia e a Nova Zelândia. Apenas o destino, se calçasse chuteiras e entrasse em campo, poderia parar a nossa seleção...

 

E enfim, Waldir Peres, Júnior, Oscar, Luizinho, Leandro, Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico, Serginho e Éder conheceriam o contra-ataque letal do destino. Na segunda fase, o Brasil enfrentaria os dois segundos colocados de seus respectivos grupos - a Argentina e a Itália - em uma triangular para avançar até a semifinal.

 

A Itália venceu a Argentina por 2 x 1 na primeira partida. Depois, no clássico sul-americano com a Argentina sob pressão, o Brasil venceu por 3 x 1 e despachou os “hermanos” para casa.

Chegava então a decisão do grupo. À Itália, por ter menor saldo de gols, só interessava a vitória. Desacreditada, a “Azzurra” boicotava a imprensa que, por sua vez, não economizava nas críticas à equipe. Ou seja, naquelas circunstâncias, o esperado era um “passeio” do Brasil, que dependeria de apenas um mísero empate para se classificar e enfrentar nas semifinais a Polônia.

 

Entretanto, o destino, desleal como um zagueiro limitado, colocou o nome de Paolo Rossi na história das copas. Então com 25 anos, o atacante viera de uma suspensão por manipulação de resultados e tivera a sua presença no grupo questionada. Rossi estava na Espanha pelo que havia produzido na Copa de 1978, com três gols na competição.

 

A estrela do craque italiano então começou a brilhar. Na hora certa (E que hora!). A equipe italiana venceu por 3 x 2 o Brasil e Paolo Rossi, que até aquela partida não havia marcado nenhum gol, transformou-se em herói nacional, sendo o autor dos três tentos que fizeram a “Azzurra” ser a protagonista de uma das maiores zebras em copas do mundo.

 

Na manhã seguinte, no Estado de Minas que eu vendia pelas ruas de Contagem, estampava a manchete que praticamente era idêntica às de outros jornais pelo mundo: "O dia em que o futebol morreu", lamentando o fato de que o pragmatismo e o espírito de competição venceram a arte e a criatividade.

 

E depois, como prêmio por essa façanha, a Itália seria a campeã, batendo a Polônia na semifinal e a Alemanha Ocidental na decisão, tendo Paolo Rossi como o artilheiro da competição.

 

Passados trinta anos, ainda não dá para esquecer essa decepção, mas claro que a “Tragédia do Sarriá” soa apenas como uma hipérbole futebolística diante de tantas tragédias cotidianas que assistimos por aí. Mas, como de todas as tragédias, o sábio é tirar lições para prevenir as futuras, faz-se necessária bastante consciência no momento de elegermos os nossos mandatários para que outras tragédias não se repitam mais...

 

*[Crônica publicada na Folha de Paraopeba, edição de agosto de 2012]

 

 

 

Bonus Track:

 

Charge_Harley_Coqueiro_Turfe_Paraopeba

 

**Charge publicada na Folha de Paraopeba, edição de agosto de 2012, retratando a corrida eleitoral de Paraopeba como uma paródia da corrida dos cavalinhos do Campeonato Brasileiro, exibida no programa dominical “Fantástico” da TV Globo. Na charge, os cavalinhos dos candidatos a prefeito de Paraopeba: Salésio Loch (DEM 25), Marcelo Uberaba (PSD 55), Waguinho da Rádio (PMN 33) e João Malaquias (PRB 10).

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - Advogado e Jornalista. Chargista e Cronista da Folha de Paraopeba. Fã de Beatles, de thrillers policiais e da boa comida mineira.

Lembrança de um garoto quase antigo

sexta-feira, 4 de maio de 2012

 
Tive a deliciosa oportunidade de conversar hoje com minha amadíssima irmã e madrinha Dinha (ficam invejosos meus irmãos por ela ser minha madrinha e não deles, embora quase todos a chamem assim e não pelo nome de Teresa). Casos deliciosos do passado (quando digo "deliciosos" é porque a maioria deles tem sabor de verdade, sempre recheados de pratos que fizeram parte de nossas vidas).
 
 
 
Minha madrinha sempre me proporciona uma sensação de amor e carinho que me evoca a minha mãe, uma aura que transcende o que as palavras desse breve post podem transmitir. Hoje falamos de pai Tião, de mãe Raimunda, de irmãos e filhos, de sobrinhos e tios, de exemplos, de alegrias e tristezas. Falamos de sabores de pastéis e quitandas, de frutas do quintal e de viagens. Aliás, minha madrinha vai viajar. Vai realizar um sonho de infância: ir a Paris. Ela, que nunca se esqueceu de dar um presentinho a seus afilhados (mais inveja!), ganhou de uma afilhada uma viagem a Paris.
 
 
Já brincava com ela hoje para se inteirar dos falares breves da sonora língua de Piaf e Aznavour, principalmente do tradicional "Je ne sais pas le français". Mas vale a pena também o "Merci beaucoup", principalmente se tiver a oportunidade de provar os deliciosos pratos da culinária francesa. Embora, sabemos nós, mineiros, principalmente, que nossa culinária é muito mais interessante, mesmo menos famosa.
 
 
Mas dizia eu do prazer em estar com minha irmã Dinha que, muito em breve, se Deus quiser, fixará residência em Caetanópolis... Conversar com ela é uma oportunidade de aprendizado de vida, ao recapitular histórias que só ela, minha irmã mais antiga, tem para contar. Detalhes da vida de meus pais e tios que me fazem orgulhoso de fazer parte de minha família e que me ajudam a entender a minha própria história.
 
 
Meu tempo não é muito, por isso não posso me estender. Espero ter em breve a oportunidade de escrever algumas dessas histórias neste espaço ou no meu Poetopias, especialmente para falar de um garoto quase antigo que mora aqui dentro de mim. Esse garoto ainda vibra e deixa a lágrima escorrer diante da emoção de ser gente, de sentir-se humano diante dessa vida tão atribulada.
 
 
Minha madrinha vai viajar a Paris e realizar um sonho. Vejo-a feliz diante disso e percebo que os sonhos são simplesmente essenciais, com o perdão da aliteração e da assonância, movido pela ânsia de escrever rápido enquanto o tempo passa e devassa o lirismo. Não sei se escrevo agora versos ou se aquilo que já disse representa o quanto quis dizer. Os sonhos são essenciais... E na lembrança desse garoto quase antigo está presente ainda a de um sonho que se repete nas histórias que ouve e conta vida afora.
 
 
Deixo para minha madrinha todo o meu amor e carinho e o pedido de bênção nesse post, ela que tem me abençoado desde que nasci, incorporando verdadeiramente o conceito de madrinha, de pequena mãe, de uma Mãe Dinha. Para ela, flores lindas...
 
 
 

Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas

Três Canções de Protesto dos Anos 80

segunda-feira, 23 de abril de 2012

 

 

 

Iniciava-se a abertura política, após vinte anos de ditadura militar. Entretanto, a juventude brasileira na década de 80, muito além de suas calças “bag” de cós alto, cabelos “mullets” e tanguinhas fio dental, tinha a sensação de que o Brasil não pertencia à ela, mas às elites reacionárias.

 

diretas ja

Nesse contexto, surgiram várias canções de protesto (coisa que não existe mais hoje em dia!)  compostas pelos jovens roqueiros (e não mais apenas pelos artistas da MPB) que se tornaram “hits” e dentre as quais destaco “Pátria Amada” (Inocentes), “Que País é Esse?” (Legião) e “Brasil” (Cazuza).

 

 

“Pátria Amada” – Inocentes

Esta lendária banda punk do ABC, é considerada a autora do “Hino Punk Nacional”.

Bons tempos em que até o Serginho Groisman tinha graça!

 

 

 

“Que País é Esse?” – Legião Urbana

O retrato sombrio de um Brasil que vendera a alma de seus índios…

 

 

 

“Brasil” – Cazuza

Esqueça a versão cafona na voz de Gal Costa, feita para novelinha da Globo!

 

 

 

[Bonus Track 1]:

 

“Inútil” – Ultraje a Rigor

Essa música foi citada até por Ulysses Guimarães, no histórico discurso das “Diretas Já!”.

 

 

 

[Bonus Track 2]:

“Até Quando Esperar” – Plebe Rude

Eu delirei muito com essa música nos meus 15 anos…!

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

Se John Lennon não tivesse morrido

sábado, 24 de dezembro de 2011

 

Nesta manhã de sábado, véspera natalina, assisti novamente ao filme “Assassinato de John Lennon”, um filme instigante que invade a cabeça perturbada de Mark David Chapman, o assassino. O britânico Andrew Piddington, diretor do filme, tenta recriar os planos diabólicos do maníaco narcisista para se tornar famoso, acabando com a vida de Lennon. O ator Jonas Ball, à época pouco conhecido, faz uma interpretação assustadora do maluco que encerrou a vida de um artista e do homem que marcou várias gerações mundo afora. Se quiser saber detalhes desse triste episódio, basta clicar aqui. Inclusive, a cena do filme está no Youtube.

 

 

Mas não é sobre isso que quero falar, exatamente. queria falar de uma ideia que me passou pela cabeça: se John não tivesse morrido? Como seria sua carreira posterior a tudo isso. Como se passaram 30 anos desse triste episódio, resolvi escrever um post somente sobre o que ocorreria nos oito primeiros anos após o que seria a tentativa frustrada de Chapman. Vejamos então…

 

 

“Se John Lennon não tivesse morrido”

Depois de ter sobrevivido à tentativa de assassinato, John Lennon resolveu dar um tempo em sua carreira. Passou uma semana em coma e três meses internado no hospital, mas conseguiu sobreviver sem sequelas físicas aos tiros do maníaco, cujo nome não gostava de ouvir, o que mostrava que as marcas psicológicas ficariam indelevelmente em sua alma.

 

John e Yoko foram para o Japão com o filho Sean. Billy Preston, Paul, George e Ringo foram ficar com ele por várias semanas. Surgiu o boato de que se reuniriam novamente, o que foi negado veemente por todos. Mas não restava dúvidas de que o que acontecera com John os reunira novamente, não como artistas, mas como amigos. A perspectiva de perder John foi algo que mexeu com todos eles.

 

As várias semanas juntos evidentemente dariam frutos: muitas canções foram compostas. Combinaram que seriam lançados álbuns individuais com elas. Paul lançou em 12 de setembro de 1982 o LP “Ressurrection”, cuja música principal, “Little bird”, tinha o seguinte trecho: “We’re just men who fight for peace / Hold me in your wings, little dove / We can’t fight anymore / We can just sleep and dream…” (“Somos apenas homens que lutam por paz /  Abrace-me em suas asas, pombinha / Nós não podemos lutar mais /  Só queremos dormir e sonhar…”).

 

George também lançou, alguns dias depois, em 27 de setembro de 1982, um LP que tinha como música principal a angustiada canção “Pain”, acompanhada por um solo maravilhoso da guitarra do amigo Eric Clapton no trecho: “My heart bleeds of pain / I imagine another song / People would be happy and can / Make different things as love each other…” (Meu coração sangra de dor / Eu imaginei uma outra canção / As pessoas seriam felizes e poderiam / Fazer coisas diferentes como amar um ao outro…”).

 

Ringo demorou mais de um ano para gravar um novo LP, mas quando o fez, em 22 de fevereiro de 1983, apareceram várias canções, com destaque para a alegre “The yes song”, que dizia “We have many reasons to laugh / including the fact of being alive / then we go to another level, where the angels sing live life…” (“nós temos vários motivos para rir / inclusive o fato de estarmos vivos / nós vamos então para outro nível / onde os anjos cantam ao vivo a vida…”).

 

Billy Preston, por sua vez, foi convidado por John para gravar com ele seu novo LP, após quatro anos, em 1985. O LP foi lançado no dia 6 de janeiro, mostrando um novo lado interessante de John Lennon: ele tinha se tornado um estudioso da história das religiões e isso aparecia em várias canções. Inclusive, a escolha da data de lançamento tinha a ver com a história dos Reis Magos do Oriente que visitaram Jesus em Belém. O disco se chamava, aliás, “Journey”, que relatava a jornada de John Lennon até aquele momento. A participação de seu filho Julian, então com 22 anos, foi maravilhosa. O sucesso foi estrondoso. Tornou-se o disco mais vendido da história, com vários prêmios mundo afora. John, no entanto, continuava sem dar entrevistas e raramente era visto em público. Mas era respeitado por sua posição. A música que mais se destacou no disco, “Trip”, revelava o seu sentimento e, de certa forma, justificava essa ausência: “Now, I know I have fear/ I made a trip to paradise / But God wanted me to be here / I do not remember the way / But this man is separated / From myth that I became a day…” (“Eu agora tenho muito medo / Eu fiz uma viagem ao paraíso / Mas Deus quis que eu estivesse aqui / Eu não me lembro do caminho / Porém este homem está separado / Do mito que me tornei um dia…”).

 

John continua recluso. Não está mais no Japão. Dizem que vive viajando. Por volta de 1987, dizem tê-lo visto em duas pequenas cidades do interior de Minas Gerais, no Brasil. Caetanópolis e Paraopeba chamaram-lhe a atenção pelo contato que ele teve com Mílton Nascimento, o Bituca, que lhe contou a história de Clara Nunes, sua amiga e a maior cantora do Brasil até os anos atuais. Inclusive, Clara recebera o Grammy em 2011 pelo conjunto da obra e uma de suas principais interpretações, do compositor mineiro Armando Fernandes Aguiar (Mamão), “Tristeza Pé no Chão”, teve uma versão maravilhosa da dupla Julian e Sean Lennon, que se apaixonaram pela música brasileira e gravaram em português, porque não conseguiram traduzir a saudade: “Dei um aperto de saudade no meu tamborim / Molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas / Dei meu tempo de espera para a marcação e cantei / A minha vida na avenida sem empolgação…”

*********************

 

Realmente, não dá para traduzir a saudade. Temos saudade de John e de tudo o que ele representou. Essa época do ano sempre serve para lembrar disso.

Deixo ao leitor meus desejos de boas festas, que o Natal seja de muita felicidade e reflexão a respeito da figura do aniversariante e do que Ele representou. Ele é mais popular que os Beatles. Digo isso dentro do contexto.

Feliz Natal! Feliz 2012!

 

Jesus e Lennon

Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas

O Presidente dos EUA

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

 

Vou relatar o que aconteceu comigo em 1981, quando eu tinha dez anos e cursava a 4ª série primária, em Contagem, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte.

 

ronald_reagan_invicioneiros

 

Naqueles tempos de vacas magras, a minha família não tinha TV em casa. Depois da aula e do almoço, o meu lazer era vender jornal para ajudar nas despesas domésticas.

 

E assim, aquele menino franzino peregrinava pelas ruas do Eldorado, vendendo o vespertino “Diário da Tarde” (que atualmente chama-se “Aqui”) no comércio e nos semáforos da João César de Oliveira.

 

Tempos difíceis mas divertidos. Mantinha-me informado do jeito que podia, ou seja: lendo as principais notícias dos jornais que eu vendia.

 

Certa vez, durante uma aula, Dona Delma, a professora da 4ª série, nos falava sobre os Estados Unidos da América, mas esquecera o nome do recém-eleito presidente americano. Não sei se por um lapso ou propositadamente, nada conseguia fazê-la lembrar do nome do bendito (ou maldito, sei lá!). A professora falava de uma forma em que procurava a ajuda de alguém.

 

Eu sabia o nome, na ponta da língua, mas fiquei receoso em responder e dar uma manota daquelas. Não queria correr o risco de ter que aturar a zoação de meus colegas.

 

Passados eternos dez segundos e vendo que a professora se afogava no turbilhão de seu esquecimento, eu me pus a salvá-la, como um herói numa tática suicida:

 

“Reagan!” - Disse eu, num tom firme e confiante.

 

A sala explodiu em risos cruéis. A professora, “ingrata”, também esboçou um sorriso, não sei se de alívio ou de sarcasmo mesmo...

 

“É ‘Rêigan’!” – Corrigiu-me um colega, pronunciando de forma correta e antipática.

 

Fiquei mudo como uma pedra e vermelho com um pimentão. Não ouvi um elogio sequer, além das risadas que ecoavam em meus ouvidos. Afinal, havia acabado de socorrer a professora e mereceria, pelo menos, uma medalha como o Muttley!

 

O detalhe jocoso é que eu pronunciei o nome da forma aportuguesada e paroxítona que lia nos jornais: “Re-a-gan”. Até então, não havia ouvido a pronúncia em inglês.

 

A professora, talvez com pena de mim, fez um gesto, meio que querendo escrever o nome no quadro negro (na verdade o sobrenome, pois o presidente republicano se chamava Ronald Reagan e, como Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia, também era ator de cinema). Mas ela desistiu, às vezes imaginando que os alunos ficassem ainda mais confusos com a escrita e a pronúncia, pois naquele tempo em Contagem, as aulas de inglês eram ministradas a partir da 7ª série do ginasial, na rede pública de ensino.

 

Passados trinta anos daqueles tempos sem TV (sem internet, sem celular e sem Bolsa-Família), ironicamente, fui o único da classe a “dizer” o nome do presidente dos EUA, a partir das manchetes dos jornais que eu vendia todo o santo dia, depois da aula.

 

Eu sei que não pronunciei o nome do presidente estadunidense da forma correta (já ouvi três tipos de pronúncia de Reagan: “rêigan”, “urêigan” e “urígan”), mas fato é que se não era o único da classe que sabia o nome, fui o único a ter a coragem para arriscar a cobrar aquele “pênalti” aos 48 minutos do segundo tempo e me saí melhor que aquele atacante do River Plate...

 

Porém, pronunciar Reagan da forma que eu fiz em 1981, realmente foi hilário!

 

 

* [Crônica publicada na Folha de Paraopeba, edição de junho de 2011]

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

Nos Tempos das Baladas de Sábado à Noite

segunda-feira, 4 de julho de 2011

 

 

Eu sou do tempo em que balada era outra coisa. Sabe aquela canção com um ritmo mais lento e com uma letrinha romântica [quase sempre uma música internacional],  feita sob medida para se dançar com o rostinho colado com a pretendente no fim do baile? Sim, era isso o que a minha ingênua geração conhecia de balada…

 

Hoje em dia, balada é sinônimo de festas noturnas de arromba, regadas à música eletrônica, bebidas e “otras cositas más” ...

 

Balada_Invicioneiros

 

Navegando  à deriva no You Tube, eu encontrei um clipe de uma típica balada oitentista: “No More Lonely Nights” de Paul McCartney.

 

Macca, que hoje em dia não sai mais do Brasil, nos presenteia com uma bela balada com direito a um solo estupendo de guitarra do Pink Floyd David Gilmour.

 

Então, chega de noites solitárias!

 

 

 

“No More Lonely Nights” [Paul McCartney]

I can wait another day
Until I call you
You've only got my heart on a string
And everything a'flutter


But another lonely night
Might take forever
We've only got each other to blame
It's all the same to me love


'Cause I know what I feel to be right
No more lonely nights
No more lonely nights
You're my guiding light
Day or night I'm always there


May I never miss the thrill
Of being near you
And if takes a couple of years
To turn your tears to laughter


I will do what I feel to be right
No more lonely nights (Never be another)
No more lonely nights
You're my guiding light
Day or night I'm always there


And I won't go away until you tell me so
No, I'll never go away


Yes, I know what I feel to be right
No more lonely nights (Never be another)
No more lonely nights
You're my guiding light
Day or night I'm always there


And I won't go away until you tell me so
No, I'll never go away
And I won't go away until you tell me so
No, I'll never go away


No more lonely nights

 

Bonus track:

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

O Dilema dos Laterais no Futebol Brasileiro

segunda-feira, 20 de junho de 2011

 

Você, caro leitor, se lembra de algum grande lateral (direito ou esquerdo) do time de seu coração, nos últimos tempos?

 

No meu time, o Atlético Mineiro, eu não lembro de nenhum nos últimos dez, quinze anos, que tenha brilhado no Galo. Talvez o Dedê, em 1997 e o Mancini, em 2002, que jogaram bem, mas não da forma brilhante quanto um Nelinho, Getúlio e Circuneghi, que atuaram nas décadas de 80 e anteriores.

 

Nelinho_Selecao_Invicioneiros

 

E da Seleção Brasileira? O último grande lateral que eu me lembre foi o Roberto Carlos.

 

O futebol, principalmente o brasileiro, assistiu a significativas transformações da década de 70 até agora. Embora o futebol é um esporte conservador por natureza e quase imutável, viu-se obrigado a passar por adaptações, na busca por esquemas táticos vencedores e inovadores (vide o Carrossel Holandês de 74).

 

Até a década de 70, início de 80, com a predominância do esquema 4-3-3, utilizavam-se os atacantes pontas, na direita e na esquerda do ataque. Os laterais, até então, eram jogadores que priorizavam a marcação, ajudando o miolo de zaga a conter as investidas dos pontas e do centroavante.

 

A partir de meados da década de 80 em diante, por causa do esquema 4-4-2, os times passam a utilizar apenas dois atacantes. As equipes, estrategicamente, já não ousam mais a jogar aberto com dois pontas, por causa do congestionamento no meio de campo, que além de propiciar solidez no sistema defensivo, trunca o meio de campo, forçando o time adversário ao erro. Daí surge a importância do novo lateral, que além de marcar, tem de ter técnica e fôlego suficientes para apoiar o ataque, com jogadas de “dois-um” e cruzamentos da linha de fundo, ao estilo dos antigos pontas (que outrora marcavam). O novo lateral, com o esquema 4-4-2, propicia abrir o jogo para as laterais do campo, sendo uma alternativa ofensiva, sem sobrecarregar o sistema defensivo, compensando as funções dos antigos pontas, tidos como arcaicos. O futebol perde um pouco do encanto, mas ganha em competitividade e resultados.

 

Na minha opinião é a posição mais exigida no futebol contemporâneo. O atleta tem que estar 100% técnica, física e psicologicamente. O lateral moderno tem de marcar bem, desarmando, ajudando a defesa; no ataque, tem de ser veloz, raciocinar rápido, chegar na linha de fundo e ter um ótimo cruzamento; e ainda voltar rápido para recompor a defesa, ufa! Uma função sobre-humana. E o pior: joga ao lado do alambrado, ao lado de sua torcida e do técnico, dependendo do tempo. Não há como fugir,  jogando no centro ou invertendo lado. Se no segundo toque na bola, errar o passe, a sua própria torcida se impacienta e afunda o jogador em seu inferno astral. E isso ocorre em todo os times, pequenos, médios ou grandes.

 

Os técnicos de futebol, atentos ao desgaste dos laterais, deslocam os volantes para cobrirem a descida do lateral (quando “desce”, o do outro lado fica) e delimitam o momento exato de realizar as suas Blitze sobre a defesa adversária, de acordo com as condições físicas dos laterais.

 

Mas se conseguir ter confiança o bastante em seu futebol, o lateral é praticamente meio time. Grandes laterais tornaram-se, ainda no fim da carreira, em grandes armadores no meio de campo: Júnior (ex-Flamengo), Paulo César Bayer (Atlético-PR), Felipe (Vasco), são poucos mas significativos exemplos.

 

Se a preparação de goleiros no futebol brasileiro tem um grau de excelência digno de ISO 9000, é preciso que os clubes, desde a base, tenham uma atenção ainda maior com os laterais em potencial, pela sua importância no futebol atual.

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

Ode às sextas-feiras e os e-mails que emudeceram

sexta-feira, 1 de abril de 2011

 

 

Um poeta sobrevivendo canta

A curtição vivida por inteira

Por isso toda sexta-feira santa

Vamos espantar a bobeira

Caiamos na noitada faceira

Vamos brincar, molhar a garganta

Porque toda sexta-feira é santa

Viva a gandaia geral brasileira!

[Vinícius de Moraes]

 

SEXTA FEIRA

Imagem: Amigos da Poesia

 

Acho interessante constatar que pequenos acontecimentos do nosso dia a dia acabam nos proporcionando uma alegria contagiante.

 

Há alguns anos atrás, quando acabara de me ingressar no emprego que estou até hoje, um fato corriqueiro em toda sexta-feira me deixava muito feliz. A alegria esfuziante do amigo Betinho com a chegada, do melhor dia da semana, diga-se de passagem.

 

Numa época em que as redes sociais ainda engatinhavam na web, o precursor da alegria radiante do amigo Betinho era o e-mail. Me habituei a chegar no trabalho toda sexta-feira e abrir o e-mail já esperando a exaltação da chegada desse dia tão aguardado.

 

Nunca tive muita empolgação com a sexta-feira, pra mim era um dia normal, apesar de ser véspera de final de semana. Mas eu ficava feliz, lendo sobre a felicidade de um amigo através do e-mail.

 

Dia desses me peguei pensando sobre esse acontecimento que durou cerca de 3 anos e hoje infelizmente não acontece mais. Betinho saiu do emprego que trabalhava na cidade e mudou-se para Belo Horizonte. De lá prá cá, sua constante referência à sexta-feira, passou a ser um acontecimento registrado apenas nos arquivos do meu hotmail.

 

Diriam os mais intrépidos que sexta-feira é fim de expediente, é dia de farra, e isso,  justificaria o motivo de tamanha felicidade. Mas só hoje percebo que a felicidade, às vezes, pode estar em pequenos gestos, em pequenas atitudes.

 

Um simples e-mail, às vezes, tem o poder de mudar nosso estado de espírito, assim como acontece com a música. Muitos já devem ter experimentado a doce sensação de felicidade quando aquela música que adoramos começa a tocar no rádio. Nessa hora deixamos pra trás nossas dívidas, nossos dissabores, nossas incertezas e nossas amarguras, só queremos curtir aquele momento.

 

Toda essa lorota é para dizer que podemos encontrar a felicidade nos pequenos atos. Coisas corriqueiras, que às vezes, nos passam despercebidas, mas que, no decorrer de nossas vidas, aprendemos a valorizar.

 

Muitas vezes nos apaixonamos por nossos problemas e acabamos por deixar muitas coisas boas passarem despercebidas. Ignoramos situações e até mesmo pessoas, que nos cercam, sem vivenciar os prazeres que de fato eles poderiam proporcionar. Acostumamos tanto a lamentar os infortúnios, que muitas vezes, vivenciamos as alegrias sem a intensidade merecida.

 

"Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram... certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso... e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz" [Carlos Drummond Andrade]

 

Nossa fissura por ter, acaba comprometendo o nosso ser. Interessante constatar que a felicidade é contagiante, experimente chegar ao trabalho radiante, dê um bom dia esfuziante, elogie alguém. Fazer as pessoas felizes, também é uma forma de ser feliz.

 

Os e-mails do Betinho de toda sexta-feira não chegam mais na minha caixa de mensagens, aliás, depois que ele se mudou eu perdi completamente o contato, vai ver só mudou o e-mail e talvez ainda continue a enviar suas “odes às sextas-feiras”. Mas é fato que suas mensagens tinham um poder mágico de tornar o dia mais feliz.

 

Sobre o Autor:
José Márcio

José Márcio - Editor Chefe dos Invicioneiros, leitor voraz e aprendiz de escritor.Tem opinião e assume os riscos Saudosista dos anos 80. E palpiteiro inveterado. Me Siga no Twitter [@jmpsousa].

Os 3 Mais Belos Gols Que Eu Marquei Ou A Redenção de Um Perneta

domingo, 23 de janeiro de 2011

 

garrincha_vibrando

 

Antes de tudo é bom esclarecer que eu sempre fui um perna de pau, ainda que gostasse goste deste esporte maluco que reúne 22 homens e uma bola. Eu debito a minha ruindade no futebol ao fato de que o meu pai, sistemático como uma porta, proibia eu e os meus irmãos de jogarem bola, e dizia que “futebol e música eram coisas de malandro” (Ainda bem que não dizia que eram coisas de baitola!).

 

A 1ª ironia é que o meu saudoso pai era atleticano/corinthiano e fã do goleiro Mão de Onça e do craque Rivelino.  A 2ª ironia é que eu acabei gostando muito de futebol e sou um músico de rock frustrado. A 3ª ironia, que não se concretizou, é que duvido se eu ganhasse os meus primeiros milhões de dólares como jogador ou roqueiro se o meu pai não mudaria imediatamente o seu préconceito de “futebol, rock e malandragem”, à beira de uma piscina em Beverly Hills, rodeado de belas garotas com os seus biquinis asa delta…

 

E assim carreguei em minha adolescência vários complexos de inferioridade: ruim de bola, ruim de dança e péssimo em matemática.  Além de ser pobre, feio e morar longe. Mas de todos os complexos, o de ser ruim de bola era um dos que mais me incomodava. Por várias vezes sofri humilhações e isolamento por não ser um craque da bola (era sempre o último a ser escolhido para as peladas!), mas ainda assim, conseguia, ainda que raramente, ter performances inesquecíveis e marcar os meus gols.

 

Eu, reprimido pelo meu pai (o meia-atacante Freud explicaria), não desenvolvi fundamentos básicos do ludopédio quando criança, o que me comprometia tecnicamente, mas inacreditavelmente, eu tinha relativa facilidade inata para driblar e um bom passe, além de ser voluntarioso sem ser desleal.

 

O meu 3º gol mais bonito foi muito especial pois foi marcado no fim do ano de 1999, durante um jogo preliminar de confraternização entre funcionários atleticanos e cruzeirenses da Prefeitura de Paraopeba. Lembro que o nosso Galo perdia por 5 x 1 e faltando menos de 10 minutos para acabar a peleja, eu entrei na lateral direita com a difícil missão de segurar as arrancadas do veloz ponta Marquinho do Zitão (“in memoriam”) e ainda tentar ajudar a pelo menos empatar a partida. Entretanto, como disseram as pessoas que estavam nas arquibancadas do Estádio das Magnólias, “incendiei o jogo”, fazendo lançamentos, tabelas, passes para gol e atormentando a defesa adversária. O gol que eu marquei foi o 4º do Galo e lembro que caía uma chuva fina que deixou o gramado pesado, e o saudoso Eduardo “Ratinho” (saudades deste bom camarada!) recebeu a bola pelo meio e viu que eu chegava pela ponta direita e rolou a bola “com açúcar e com afeto” para que eu chutasse de direita, de primeira e fora da área, e marcasse um belo gol no goleiro azul Bené. Pena que só deu tempo para eu comemorar o gol e o juiz encerrar a partida. Fiquei triste pois o Galo perdera por 5 x 4 naquela manhã, mas muito feliz pelos elogios de quem me viu jogar. E isto para um perneta, não tem preço!

 

O meu 2º gol mais bonito foi marcado em 1982, numa tarde na quadra do Conjunto das Américas, em Contagem/MG. E aconteceu um fato interessante e meio “sobrenatural de almeida”. Era uma partida de futebol de salão (na época ainda não era conhecido como futsal) e a peladinha estava “pau a pau”. Lembro que atuava de pivô e em determinado momento um jogador da minha equipe havia chutado e a bola bateu no travessão e veio na minha direção. Só que eu pipoquei: fiquei com medo de cabecear a bola pois o goleiro saiu arrojado “no abafa”, esmurrando a redonda. Pensei: “Se houver outra oportunidade dessas, eu não desperdiçarei!”. Incrível: fui acabando de pensar e parece que os deuses do futebol ouviram o meu pensamento e tiveram misericórdia de mim. Lembro que o Geraldinho (um sósia do Hernandez, física e futebolisticamente) chutou do meio da quadra e a pelota explodiu no travessão. A bola rebateu e o goleiro saiu novamente para interceptar a gorduchinha, estendendo as mãos para que eu não a cabeceasse, mas já era tarde: cumprimentei-o com um belo gol de cabeça (o famoso “queixo no peito” do Dadá). Neste lance aprendi que em futebol não há lugar para medrosos. Lembro que todos que estavam fora da quadra comentaram  o belo gol que eu havia marcado.

 

E o meu gol mais bonito foi marcado numa peladinha de futsal numa tarde de 1992, na quadra da CNEC em Caetanópolis/MG. O Bila (um sósia do Mozer) recebeu a bola do goleiro no lado esquerdo da meta e inteligentemente percebeu que eu me deslocava em diagonal, da direita para esquerda, confundindo a marcação adversária. O Bila então  fez um lançamento primoroso de 100 jardas.  Eu, de fora da área adversária, meio à esquerda, matei a bola com a direita e sem deixá-la cair, executei um giro de 180 graus (pois estava de costas para o gol) e chutei forte com o pé esquerdo (na veia!) e o goleiro deve estar procurando a bola até hoje…

 

Apesar de não ter sido abençoado no futebol, eu, um típico “nerd”, acabei por uma dessas ironias do destino, sendo convidado para ser um comentarista de futebol em um canal de TV (“Esporte 56” da TV Educativa de Paraopeba).

 

Agora, amigo leitor, se você chegou até aqui é porque gosta também de futebol. Conte para nós como foi(ram) o(s) seu(s) mais belo(s) gol(s). Vale de peladinha a gol de Copa do Mundo…

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, torcedor do Galo, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

Neimar de Barros – Deus Negro

domingo, 24 de outubro de 2010

 

Vejo, por acaso, uma frase na internet atribuída a Neimar de Barros. Não, ele não foi jogador de futebol. Lembro-me então de quanto esse escritor influenciou-me quanto tinha meus treze anos e um pouco mais. Foi-me apresentado em livro (“Deus Negro”) por meu irmão padrinho, o Dendê (nunca o chamo assim fora da blogosfera). É um livro de palavras impressionantes! Despertou em mim uma religiosidade resistente que me alimenta até hoje e que é a base de minha estrutura humana.

 

 Deus Negro.

 

No momento em que li de novo palavras de Neimar de Barros, percebi que não o conhecia bem, não sabia da sua história nem porque escritor tão badalado que foi naquele tempo não era mais falado nos meios editoriais que frequento. Perguntei ao detetive Google e ele revelou-me coisas muito interessantes a respeito desse homem. Reproduzo abaixo a síntese de algumas dessas informações, colhidas em alguns sítios da rede.

 

 

Neimar de Barros, antes de se tornar escritor, trabalhava com o Sílvio Santos. Segundo a Wikipedia, era conhecido produtor de televisão da equipe do homem do sorriso. No início da década de 70, teria criado e produzido programas de grande audiência como “Cidade contra Cidade”, “Boa Noite Cinderela”, entre outros.

 

 

Ainda segundo a enciclopédia virtual, Em 1971 foi convidado a participar de um encontro dentro da Igreja Católica, o “cursilho”. Como ateu, ele aceitou desafiar o convite dizendo que só acreditava no que podia ver. No terceiro e último dia, depois de ter aprontado e atrapalhado o encontro, entrou na capela e algo o fez ajoelhar-se, uma grande emoção o tomou e ali naquela hora aconteceu sua conversão.

 

 

Acabou deixando o trabalho na antiga TVS e tornou-se o famoso escritor de mais de 10 livros de temática religiosa (inclusive em espanhol), com destaque para o best-seller “Deus Negro”, que vendeu mais de 4 milhões de exemplares. Virou palestrante, lotando ginásios de esportes, auditórios, igrejas e teatros, com tanto destaque, que foi capa da revista “Família Cristã”, a maior publicação católica do Brasil, da editora Paulinas. Como leigo conseguiu quebrar vários paradigmas, sendo uma forte referência dentro da Igreja Católica.

 

 

Mas como nem tudo que é bom dura para sempre, esse Neimar de Barros passou por vários problemas não divulgados claramente (suspeita-se que teve problemas psicológicos e neurológicos) e algo mudou. Em 1986, ele concedeu uma entrevista bombástica à revista Veja, revelando que sua conversão teria sido uma farsa. Ele contou ter sido contratado por uma loja maçônica internacional (P2), para se infiltrar na Igreja Católica e repassar informações sobre a conduta de religiosos. A maioria de seus admiradores não acreditou nessa história, e sabemos que a Revista Veja teve recordes de venda naquela semana, ultrapassando 900 mil exemplares. Depois disso, Neimar escreveu dois livros contando a mesma história, sem sucesso e que nunca foi comprovada.

 

 

 

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Oculto por alguns anos, ele depois reapareceu na equipe de Sílvio Santos, trabalhando novamente como produtor. Hoje leva uma vida simples, e fica a dúvida se o autor de “Deus Negro” de fato existiu ou foi um personagem de uma história ainda incompleta. Mas não há nenhuma dúvida de que sua obra foi um marco na vida de toda uma geração que leu seus livros, em especial “Deus Negro”.

 

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DEUS NEGRO

Autor: Neimar de Barros

 

 

Eu, detestando pretos,

Eu, sem coração!...

Eu, perdido num coreto,

Gritando: “Separação”!

Eu, você, nós... nós todos,

Cheios de preconceitos,

Fugindo como se eles carregassem lodo,

Lodo na cor...

E com petulância, arrogância,

Afastando a pele irmã.

 

 

Mas

Estou pensando agora:

E quando chegar minha hora?

Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã!

Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas,

Se eu chegasse lá e um porteiro manco,

Como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta,

E eu reparasse em sua vista torta, igual àquela que eu critiquei

Se a sua mão tateasse pelo trinco,

Como as mãos do cego que não ajudei!

 

 

Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei!

Se uma criança me tomasse pela mão,

Criança como aquela que não embalei

E me levasse por um corredor florido, colorido,

Como as flores que eu jamais dei!

 

 

Se eu sentisse o chão frio,

Como o dos presídios que não visitei!

Se eu visse as paredes caindo,

Como as das creches e asilos que não ajudei!

 

 

E se a criança tirasse corpos do caminho,

Corpos que eu não levantei

Dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,

Que era vagabundagem, mas era fome!

 

 

Meu Deus!

Agora me assusta pronunciar seu nome!

E se mais para a frente a criança cobrisse o corpo nu,

Da prostituta que eu usei,

Ou do moribundo que não olhei,

Ou da velha que não respeitei,

Ou da mãe que não amei!...

 

 

Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,

Porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,

Sei lá, só dei desgosto!

E, no fim do corredor, o início da decepção!

 

 

Que raiva, que desespero,

Se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,

O maldito funcionário, e até, até o padeiro,

Todos sorrindo não sei de quê!

Ah! Sei sim, riem da minha decepção.

 

 

Deus não está vestido de ouro! Mas como???

Está num simples trono:

Simples como não fui, humilde como não sou.

Deus decepção!

Deus na cor que eu não queria,

Deus cara a cara, face a face,

Sem aquela imponente classe.

Deus simples! Deus negro!

Deus negro!?

 

 

E Eu...

Racista, egoísta. E agora?

Na terra só persegui os pretos,

Não aluguei casa, não apertei a mão.

Meu Deus você é negro, que desilusão!

Será que vai me dar uma morada?

Será que vai apertar minha mão? Que nada!

 

 

Meu Deus você é negro, que decepção !

Não dei emprego, virei o rosto. E agora?

Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto?

Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?

 

 

Deus, eu não podia adivinhar.

Por que você se fez assim?

Por que se fez preto, preto como o engraxate,

Aquele que expulsei da frente de casa!

 

 

Deus, pregaram você na cruz

E você me pregou uma peça:

Eu me esforcei à beça em tantas coisas,

E cheguei até a pensar em amor,

Mas nunca,

nunca pensei em adivinhar sua cor!...

 

 

© Neimar de Barros

 

 

Deus Negro

Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas

A caixa

quarta-feira, 2 de junho de 2010

image

 

Na linha do post anterior, ainda lembrando pessoas queridas da minha vida como educador, deixo-lhes mais um texto breve em que duas figuras aparecem-me marcantes, pelo amor irradiado.
 

Um casal que encantava a todos, não só pela simpatia, mas pela simplicidade e sobretudo pela fidelidade com que viviam o namoro, já, naqueles anos, coisa rara entre jovens do Ensino Médio (muito mais hoje, não é mesmo?), no extinto e valorizado curso de Técnico em Contabilidade da CNEC de Caetanópolis.
 

Como observador que nada sabe, via crescer diante de mim uma coisa muito bonita que sempre impressiona aos neófitos, como eu era naquele tempo, nas relações amorosas. JM e J, permitam-me não revelar-lhes os nomes por questão de ética (eles são leitores de “Os Invicioneiros” e saberão, certamente, que os homenageio), continuam pessoas fascinantes pela simpatia que irradiam em tudo que fazem. Eu que o diga, pois sou agraciado com amostras disso de vez em quando.
 

Universalizando esse episódio de minha vida, trago então aos leitores a importância de valorizarmos pessoas assim, verdadeiros paradigmas. Muitos amigos fiz nessa época e ao longo da minha vida como educador. Alunos meus inverteram (e ainda invertem) muitas vezes os papéis. Tornam-se meus mestres. E como é bom aprender...
 

A eles deixo um poema da época, feito de metáforas que sintetizam fatos importantes de minha vida. Nunca o leram, pois nunca mostrei a eles. Espero que gostem.
 

image

 

“A caixa”

 

Tenho em casa uma caixa
onde guardo todos os meus sonhos bons.
É como se fossem fitas cassetes
registrando todos aqueles sons
que constituem a música de minha vida.
Guardo também algo mais precioso,
Que são as lembranças de um tempo bonito.
Aquela inesquecível turma de Contabilidade
Deixou para mim juros enormes de saudade.


O rapaz de olhos claros que brinca nas minhas aulas
E a moça bonita, sua namorada firme e decidida
Encantam a todos pela maneira que vivem a vida.
Eram, sem dúvida, símbolos de um amor nascente
Que contrariava o status quo daquela gente.


Perco-me às vezes, dentre os labirintos
Que criei para proteger essa caixa preciosa.
Procuro me livrar do Minotauro,
que sou eu mesmo — não consigo.
Ícaro, voo então com minhas asas de cera,
sobrevoando minha própria consciência...


Lembrando aquela turma de Contabilidade
Resgato um tempo de boas coisas na vida
Construo então dentro de mim uma verdade
Que me estruturam firmemente para suportar a lida
Imposta impiedosamente pela dura realidade.


Através dos amigos que constituímos
E das felicidades construídas que vemos
Podemos compreender os paradigmas que representam.
Essa caixa, meu tesouro, reserva-me a oportunidade
De lembrar essa turma do curso de Contabilidade.


 

Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas

Aura

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

 
Hoje meu pai completaria 92 anos। Ele se foi há algum tempo, mas como todas as pessoas inesquecíveis, ficou presente na memória de todos os que o conheceram। Esse post pode, a princípio, parecer descaracterizado para esse blog. Entretanto, lembro que somos “Os Invicioneiros”. A palavra “invicioneiro” não está no Houaiss, nem no Aurélio, nem no Aulete. É típica de nossa região e designa aquelas pessoas que têm muita “invicção” (palavra que não existe no Houaiss, mais que no Aulete é um substantivo feminino, típica de Trás-os-Montes, do latim “Invictus”, que significa “entusiasmo; paixão” ou ainda “Pertinácia”). A grafia mantém o “C” mudo, mesmo após a reforma ortográfica, porque lá nas terras lusitanas, na verdade, ele é pronunciado. Na nossa região, “invicção” é pronunciada como “invição” e refere-se à vontade de obter algo e, mais especificamente, no caso do futebol, a de tentar fazer um gol, mesmo que haja um companheiro mais bem posicionado para finalizar.
 
Mas, voltando ao assunto inicial desse post, falar de meu pai é ser um invicioneiro. É como falar de muitos pais e de muitas pessoas queridas para qualquer um que esteja lendo essa publicação. Nunca as esquecemos pelos referenciais de vida que nos deixam, quer os sigamos ou não. Meu pai era industriário e eletricista e trabalhou a vida toda em uma só empresa, a Cedro Têxtil, por 53 anos e uns quebrados. Eu sou industriário e trabalho na mesma Cedro Têxtil em que meu pai trabalhou já faz 27 anos. Em paralelo, sou professor e leciono há 24 anos.
 

Tenho orgulho das minhas profissões, como meu pai. Adoro minha família e procuro estar a todo momento com meus irmãos, amigos, filhos e esposa o tempo todo, como meu pai. Gosto das músicas de que meu pai gostava, torço pelo mesmo time, o glorioso Clube Atlético Mineiro, o meu Galo. Adoro Folia de Reis, Pastorinhas e todas as manifestações tradicionais de minha região, como meu pai. Sou apaixonado pela leitura e pelo teatro, como meu pai. Enfim, existe uma grande intersecção entre o que meu pai gostava e o que eu gosto.

Creio na vida eterna, como cristão. Se fosse cético, ainda acreditaria nisso, pois as pessoas se perpetuam através da memória que deixam. Meu pai tinha uma espécie de aura que o cercava. Ele será eterno em minha memória e na de meus filhos, irmãos e de todos que o conheceram e foram seus amigos. Minha meta de vida é me eternizar como ele e ser lembrado não pelo que tive, mas por quem fui...


“Aura”


Fecho os olhos na escuridão da noite
E lembro-me dos caminhos percorridos...
Meu pai faria noventa e dois anos hoje
Nenhuma dor foi inútil, nenhuma lágrima
Tudo o que sofri valeu-me, e como...
Abro os olhos na escuridão da noite,
Levo meu pensamento para além de mim.
Lembro-me do meu pai que se foi
Mas deixou-me paradigmas que procurarei seguir
Estas palavras não são mais minhas
Pois estou repleto de mim mesmo.
Devo agora transbordar...
Eu rio riacho córrego ribeirão
Transbordo as águas da emoção
Fecho os olhos na noite escuridão
E abro agora o meu coração
Para cada lágrima um sorriso
Para cada suspiro de dor
Suspiro agora o amor
Que me rodeia como uma aura
Tudo o que sofri valeu-me, e como!...
Meu pai está fazendo noventa e dois anos hoje
Vejo agora seu rosto, sorriso e suas mãos abertas
Nenhuma dor foi inútil, nenhuma
Fecho os olhos nesta escura noite
E durmo...
 
The_EDN[2] The EDN, sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas.